Joana Jugan (1792-1879)
Outubro 20, 2007 at 3:26 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a CommentTags: biografias, dedicação, figuras carismáticas, Irmãzinhas dos Pobres
Paul Milcent
Joana Jugan
Publicação das Irmãzinhas dos Pobres
(excertos)
A filha de um pobre marinheiro
(1792-1816)
Uma casinha baixa de tecto de colmo e solo de terra batida; um lugarejo nas alturas que dominam a baía de Cancale, na Bretanha (França) — eis o quadro em que nasceu Joana Jugan, no dia 25 de Outubro de 1792.
1792 — esta data evoca acontecimentos dramáticos. Algum tempo antes, duzentos padres eram massacrados em Paris, porque recusavam prestar o juramento exigido pelo poder revolucionário e, alguns meses depois, o Rei Luís XVI era guilhotinado.
Pressente-se, desde logo, que o Oeste de França irá sublevar-se para defender as suas tradições e haverá, durante sete ou oito anos, uma dura guerra civil. Como muitas outras igrejas, a de Cancale será encerrada e transformada em armazém de forragem. Estes difíceis acontecimentos vão marcar a infância da pequenina Joana, que será também duramente afectada pela morte prematura de seu pai. Tendo saído, por alguns meses, para a pesca no alto mar, não estava presente quando a filha nasceu. Outras vezes, não podia partir, quando o deveria fazer para ganhar algum dinheiro, porque a sua falta de saúde o impedia de embarcar. Então, a mãe tinha de trabalhar, de lavar roupa, durante dias inteiros, para sustentar os filhos — oito ao todo, dos quais, quatro, morreram de tenra idade. E um dia, quando Joana tinha três anos e meio, o pai voltou a embarcar e nunca mais voltou. Esperaram-no durante muito tempo, mas tiveram de aceitar esta quase certeza: ele tinha morrido no mar.
A pequenina Joana aprendeu com a Mãe a fazer os trabalhos domésticos, a tratar dos animais, a rezar. Nessa época não havia catequese organizada, mas muitas crianças aprenderam o catecismo em segredo, com pessoas suas vizinhas que tinham adquirido uma fé pessoal e responsável numa espécie de ordem terceira fundada por S. João Eudes, no século XVII. Nesses anos difíceis, os membros desta Instituição, vivendo a sua vida laica como uma consagração a Cristo, desempenharam um papel considerável na transmissão da Fé. Foi, sem dúvida, graças a eles, que Joana aprendeu a ler e alcançou um conhecimento exacto da Fé Cristã. Mais tarde, ela própria entrará para esse grupo.
Por volta dos 15 ou 16 anos, Joana foi colocada como ajudante de cozinheira numa família dos arredores. A casa, que ainda existe, chamava-se «Mettrie-aux-Chouettes». A rapariguinha chegou lá muito tímida, mas pronta a aprender e a fazer bem o seu novo trabalho. Parece que a Senhora De La Choue a acolheu afectuosamente e a rodeou de simpatia. Com o decorrer dos anos teve mesmo por ela uma grande admiração porque Joana não foi só empregada na cozinha — esteve ligada ao serviço dos pobres. Ia visitar famílias indigentes e velhinhos que viviam isolados e aprendia já a partilha, o respeito, a ternura e quanta delicadeza é necessária para que se não humilhem os que precisam de ser ajudados.
Por essas alturas, um jovem pediu-a em casamento e, segundo o costume, Joana pediu-lhe que esperasse. E continuou o seu serviço que, para ela, era também uma escola onde se aperfeiçoava. Um pouco mais tarde, em 1816, houve em Cancale, uma grande missão a cumprir: depois da terrível tempestade da revolução era preciso reconstruir a Fé e a Igreja. Joana participou nessa tarefa. Foi então que decidiu guardar-se para o serviço de Deus e não se casar, o que fez saber ao seu pretendente.
O futuro era uma incógnita. Existia nela, todavia, um pressentimento indefinido, talvez. Mesmo assim, disse um dia à Mãe:
«Deus quer-me para Ele. Guarda-me para uma obra que não é conhecida, para uma obra que ainda não está fundada.»
Primeiros passos em direcção aos pobres
(1817-1823)
Em 1817, Joana, com 25 anos, deixou Cancale e a Família. As suas duas irmãs eram casadas e, dentro em breve, seriam mães, Mas ela fizera outra escolha. Deixou às irmãs uma parte dos seus fatos «tudo o que tinha de elegante e de bonito» — diz-se; e partiu para Saint-Servan, pondo-se ao serviço dos pobres; queria ser pobre como eles. De facto, a cidade de Saint-Servan estava cheia de pobres, de necessitados. Quase metade da população estava inscrita no serviço de Beneficência e numerosos mendigos assediavam as poucas famílias que viviam mais à vontade.
Joana entrou como enfermeira no hospital «du Rosais», demasiado pequeno para acolher as misérias que lá se refugiavam, porque um hospital, naquela altura, era mais um refúgio para todas as angústias que um importante lugar de ciência médica; e uma enfermeira apenas sabia preparar chás, fazer pensos, pôr cataplasmas…
Durante cerca de sete anos, Joana dedicou-se aos trezentos doentes que aí se amontoavam, com trinta e cinco crianças encontradas ou abandonadas. Entre estes desgraçados «tinhosos, com sarna ou com doenças venéreas» e sem meios suficientes, o trabalho era rude, esgotante! Joana entregou-se a esta tarefa com todo o seu coração. Além disso, contasse, consagrava os seus momentos livres a iniciativas apostólicas; foi assim que teria ajudado um enfermeiro a aprender o catecismo.
Era animada por uma fé viva. Aquando de uma missão que reavivou a vida cristã em Saint-Servan, em 1817, criaram-se congregações destinadas a encorajar uma ajuda espiritual, a estimular a oração e a reflexão cristãs. Joana inscreveu-se na congregação das raparigas.
Um pouco mais tarde, entrou para um grupo mais exigente, a tal «ordem terceira eudista» (ou Sociedade do Coração da Mãe Admirável), que ela conhecera, sem dúvida, desde a infância, através das pessoas de fé que lhe tinham ensinado o catecismo.
As mulheres que compunham esta sociedade levavam uma espécie de vida religiosa em casa e juntavam-se, regularmente, em reuniões de oração e de partilha. Impunham-se uma disciplina de vida e de oração quotidiana. Era sobretudo aí que encontravam uma tradição espiritual forte, herdada de S. João Eudes; o apelo a um cristianismo do coração, a iniciação a uma fé pessoal e livre, relação viva com Jesus Cristo.
Joana foi membro desta ordem terceira durante vinte anos e parece que ficou profundamente marcada por ela. O espírito do grupo encontra-se na primeira regra ou hábitos das Irmãzinhas dos Pobres, principalmente no que respeita à comunhão viva com Jesus e à renúncia de si mesma — caminho para a liberdade interior.
Mas nós tínhamos deixado Joana no «Hospital du Rosais», no meio dos seus pobres doentes, numa extrema pobreza de meios. Ao fim de seis anos, tendo ultrapassado os limites das suas forcas, estava completamente exausta e teve de abandonar o seu trabalho.
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