Albert Schweitzer (1875 – 1965)
Outubro 19, 2007 at 6:34 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a CommentTags: biografias, determinação, figuras carismáticas, medicina, persistência, prémio Nobel
Terésio Bosco
Alberto Schweitzer
Porto, Edições Salesianas, 1990
“Ao observarmos a sociedade contemporânea, uma coisa nos impressiona: discutimos mas não fazemos progressos. Porque os povos não confiam uns nos outros”.
“Os homens querem chegar à lua, mas não vêm as flores que desabrocham a seus pés”.
“Assim como a luz branca é a resultante de raios coloridos, assim o respeito pela vida supõe todas as componentes da ética: amor, benevolência, simpatia, empatia, paz, capacidade de perdoar”.
“O homem não pode viver para si. Devemos tomar consciência de que toda a vida é preciosa e que estamos unidos a todas as formas de vida”.
Alberto Schweitzer
Ao saírem da escola, dançavam no ar os primeiros flocos de neve. O espectáculo provocou uma alegria esfuziante naquela multidão de estudantes, que se atropelavam e envolviam em lutas rumorosas, acaloradas e felizes. Só um se mantinha à parte: Alberto.
Há três anos que frequentava a escola, mas era sempre posto de lado. Porquê? Por ter pouca vida, mas sobretudo por ser o filho do pastor, isto é, um “fidalguete”, e vestir melhor que todos os filhos dos camponeses. Aquele cerco de solidão enchia de amargura o coração de Alberto. Naquele dia, vencido pela alegria da neve a esvoaçar, decidiu acabar com esse isolamento. Aproximou-se de George Nitschelm, um latagão de rosto rubicundo e forte musculatura. Apesar disso, pondo a pasta no chão Alberto disse-lhe:
— Vamos à luta. Tenho a certeza que te venço.
Aquelas palavras eram uma declaração de guerra. Mas Alberto não sabia o que era a guerra nem tão-pouco como se declarava: dizia aquilo com um sorriso aberto e cordial, olhos luminosos e serenos, como se tivesse convidado Jorge a comer bolos. Jorge aceitou a guerra. Desatou numa gritaria triunfante como se há muito tempo esperasse aquela ocasião; cuspiu nas mãos, e dirigindo um olhar significativo aos colegas que se aglomeravam em volta deles gritou:
— Vamos a isso, meu anjinho. E prepara-te para o que der e vier!
Alberto olhou para ele desolado, pois o que desejava era apenas um encontro de amigos. Jorge pelo contrário queria a guerra total. Mas Alberto não podia continuar a viver à margem. E embora a contragosto lançou-se, de cabeça em riste. Era por demais evidente que Alberto, um barra em aritmética, de luta livre não percebia nada. Caiu por terra duas ou três vezes com as fintas e as rasteiras de Jorge. Em volta deles os companheiros gritavam de entusiasmo. Mas o pálido “fidalguete”, com as lágrimas nos olhos, a cada passo voltava a cair. Para ele, agora era uma questão de vida ou de morte. Finalmente, evitando uma nova rasteira, Alberto conseguiu deitar as mãos a Jorge. Agarraram-se fortemente, dentes cerrados pelo esforço, procurando cada qual dominar o adversário. Jorge nunca pensou que aqueles braços tão franzinhos tivessem tanta força. A certa altura começou a fraquejar. Não podia mais. A um novo esticão perdeu o equilíbrio, e caiu de costas. Alberto, olhando-o, lançou-se sobre ele. No seu rosto tinha aparecido de novo o sorriso cordial, e agora estendia a mão ao “inimigo” vencido, para ajudá-lo a levantar-se. Mas Jorge recusou. Levantou-se sozinho, e com lágrimas de raiva gritou-lhe:
— Se em minha casa houvesse a fartura que há na tua, havia de malhar-te até dar cabo de ti.
E desapareceu. Alberto sentiu-se atingido por aquelas palavras como se fossem pedradas. Olhou em volta. O silêncio dos colegas exprimia o mesmo pesar. Então, num repente, agarra na sacola e soluçando corre para casa. Não quis jantar: parecia-lhe ver os companheiros, sentados à volta das suas mesas sem nada para comer. Naquele dia tinha descoberto uma coisa que o enchia de amargura: a miséria.
No domingo seguinte, quando fosse à igreja com o seu pai para a reunião dos fiéis, Alberto devia vestir o sobretudo novo.
Pela primeira vez cedeu à teimosia: não quis. O pai tinha pressa e começava a perder a paciência:
— Então, acabas ou não acabas com esses caprichos?
— Mas eu não quero o sobretudo.
— É porque foi aproveitado do meu sobretudo velho?
— Não, papá, não é por isso.
— Então?
— Porque os meus colegas também o não têm.
— Essa é uma razão nobre. Mas eu sou o pastor, e não quero que as pessoas pensem que não tenho dinheiro para comprar um sobretudo ao meu filho. Veste-o.
Foi como se tivesse falado com as paredes.
— Então recusas obedecer ao teu pai?
— Eu não recuso obedecer-te, papá. É que eu não posso levar o sobretudo.
— Sabes então o que sou obrigado a dar-te?
— Sim.
Alberto apanhou então um tabefe, mas foi para a igreja sem o sobretudo, como os outros rapazes. Em todos os domingos daquele Inverno, mesmo que tivesse de apanhar de novo, Alberto não mudou de ideia. Mas o pai tinha compreendido a bondade do seu filho, e nos últimos domingos de Inverno o tabefe tinha-se transformado em carícia.
Ao chegar o Verão, Alberto acompanhou o pai pela primeira vez a Colmar. Caminhando por uma rua junto aos jardins públicos, a certa altura parou e apontou ao pai uma estátua. Era a “cabeça de um jovem negro” de Bartholdy, o autor da Estátua da Liberdade de Nova Iorque. Representava um negro forte e distinto, mas de olhos aterrorizados.
— Porque é que tem medo daquele negro, pai?
— É um negro do Gabão, o país mais pobre do mundo. Os que lá nascem são pessoas condenadas à miséria.
Um livrinho verde indica o caminho
Quando aos 14 anos Alberto Schweitzer abandonou Günsbach, a aldeia onde seu pai era pastor, para prosseguir os estudos em Mulhausen, manifestava já uma extraordinária vocação musical. Desde os nove anos que todos os domingos se sentava ao órgão da igreja para acompanhar as funções que o pai dirigia.
Em Mulhausen, quando os estudos liceais lhe deixavam algum tempo livre, Alberto dirigia-se para a igreja de Santo Estêvão e sentava-se ao órgão. Foi ali que descobriu Bach, o grande músico alemão que na primeira metade do século XVIII tinha oferecido ao mundo um rio caudaloso de música, que até então permanecera esquecida nas estantes das bibliotecas. Quando Alberto Schweitzer tocou no órgão de Santo Estêvão as primeiras peças daquele grande músico, Bach era quase desconhecido. Será ele, Schweitzer, que o dará a conhecer à Europa e ao mundo com os seus admiráveis concertos e com os seus livros.
Aos 18 anos inscreve-se na Universidade de Estrasburgo e simultaneamente inicia uma série de concertos de órgão na Alemanha, na França e na Espanha.
Aos 22 anos laureou-se em teologia pela Universidade de Estrasburgo. Um ano depois conseguiu a láurea em filosofia. Entretanto tinha-se tornado um dos organistas mais célebres da Europa. Vendia saúde e a sua força de vontade era enorme: conseguia brilhar nos estudos e dedicar várias horas por dia ao órgão, para preparar os concertos. Dormia três a quatro horas por noite, e apesar disso a sua capacidade intelectual era fora do comum. Um ano depois da sua segunda láurea, Schweitzer foi convidado a ficar na Universidade de Estrasburgo: professor universitário aos 24 anos.
Na manhã de Pentecostes, Alberto Schweitzer foi acordado pelo toque dos sinos.
“Imóvel, escutei aqueles sons juntamente com a voz da minha felicidade íntima — escreveu. — Os meus sonhos mais radiosos tinham-se concretizado. A vida abria-se maravilhosa diante de mim. Mas de repente o meu pensamento voltou-se para uma multidão de homens, homens sem conta que nada possuíam… Vieram-me à mente as palavras de Jorge Nitschelm: “Se em minha casa houvesse a fartura que há na tua…”, e as palavras do meu pai diante da estátua do negro: “a gente mais pobre e miserável do mundo…”. Dentro de mim ressoavam insistentes as palavras do Evangelho: “Àquele que muito recebeu muito será pedido… Recebestes de graça, pois dai de graça… Pregai a palavra… Curai os enfermos…”. Naquela manhã Alberto Schweitzer, com calma e lucidez, tomou uma decisão: continuaria a dedicar-se à ciência por mais seis anos. Depois deixaria tudo, e iria para um país miserável a fim de dedicar a vida aos seus irmãos mais desgraçados. Durante aqueles seis anos tomaria conhecimento do país onde a miséria fosse maior, e esse país seria a sua futura pátria. Era o dia de Pentecostes de 1899.
“Uma manhã de Outono (1904) — conta Schweitzer — encontrei sobre a minha mesa de trabalho um daqueles livrinhos de cor verde nos quais a Sociedade das Missões Evangélicas de Paris publicava os relatórios mensais das suas actividades. Pu-lo de lado para retomar o meu trabalho. Mas depois peguei nele e abri-o mecanicamente. O meu olhar caiu sobre um artigo intitulado: As necessidades das missões no Gabão. Aquela região era ali apresentada como “o ponto mais doentio do mundo”, e o director da Sociedade das Missões lamentava que a missão carecesse de homens para continuar a obra. Exprimia a esperança de que o seu apelo fosse ouvido pelos que “vivem sob o olhar do Senhor” e os levasse a ir trabalhar naquela obra urgente. O artigo terminava com estas palavras “Precisam-se homens que à chamada do patrão respondam generosamente: Senhor, aqui estou! Deus tem necessidade destes homens”. Terminada a leitura, recomecei com toda a tranquilidade o meu trabalho. Fiquei a saber naquele momento a que actividade dedicaria a minha vida.”
Um maço de cartas para começar desde o princípio
O professor Schweitzer estava noivo de Hélène Bresslau. Logo que pôde estar com ela, disse-lhe:
— Hélène, já encontrei a finalidade da minha vida: servir os negros do Gabão. Eles necessitam sobretudo de médico. Vou pôr de parte todas as outras ocupações para me inscrever na faculdade de medicina. Dentro de oito anos estarei apto para partir. Sentes-te com coragem de esperar por mim durante tanto tempo? E especialmente, sentes-te com coragem para vires sepultar-te comigo no meio das florestas? Eu não tenho direito de expor-te aos perigos e à miséria.
Hélène reflectiu um pouco, muito séria. Depois sorriu:
— Vou frequentar um curso de enfermagem — disse-lhe. — Assim sentir-te-ás mais ligado à tua Hélène.
No dia 13 de Outubro Alberto Schweitzer deitou na caixa do correio um maço de cartas. Em algumas delas anunciava aos parentes e amigos a decisão tomada. Noutras pedia a demissão da Universidade e de todos os outros encargos para poder iniciar os estudos de medicina.
Aquelas cartas tiveram o efeito de uma bomba. Em Paris, em Estrasburgo, na sua terra natal muitos pensaram que se tratava de uma loucura passageira. Escreveram-lhe cartas a lamentar a decisão, disseram-lhe claramente que o que tencionava fazer era o maior disparate da sua vida. “Nenhum deles pode compreender — escreveu entristecido Schweitzer — que a atitude de servir o próximo recomendada por Jesus possa levar alguém a mudar o rumo à sua vida. Todavia todos lêem o Evangelho, e todos acreditam em Jesus Cristo…”.
Mas Alberto Schweitzer, quando tomava calmamente uma decisão, não voltava atrás. Quando começaram os cursos de medicina, os estudantes do primeiro ano ficaram admirados de ver a seu lado alguém que até há pouco pertencia ao corpo de professores. Foram oito anos de trabalho aturado: seis para a láurea, um de trabalhos práticos no hospital, e outro em Paris, dedicado à medicina tropical. Neste último ano Schweitzer realizou também uma série de concertos. Nas catedrais de França, Espanha, Inglaterra, Alemanha foi aplaudido pelas admiráveis execuções de Bach. Com o dinheiro recebido encheu sessenta e nove caixotes de medicamentos. Depois casou com Hélène, e com ela partiu. Os amigos de Paris quiseram oferecer-lhe um piano.
— Assim lá longe não perderás o exercício. E se um dia te cansares da floresta, poderás voltar às nossas catedrais.
O piano estava revestido de fortes chapas de ferro para o defender das formigas brancas.
Segue: Pirogas no rio Ogové
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