Dom Bosco
Outubro 19, 2007 at 9:02 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a CommentTags: biografias, dedicação, determinação, figuras carismáticas
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Sapateiros no corredor e alfaiates na cozinha
Em 1848 rebentou a primeira e sangrenta guerra da Independência.
Nos campos de batalha caíram milhares de homens, e pelas ruas de Turim começaram a vaguear grupos de órfãos sem casa nem futuro.
D. Bosco ampliou o orfanato. Bateu à porta dos ricos, importunou nobres e damas da aristocracia, conseguindo assim dinheiro para a construção de urna casa mais ampla, para os rapazes abandonados sem eira nem beira.
Muitos destes miúdos eram espertos e inteligentes. No entanto viam-se condenados a trabalhar como serventes de pedreiro para sobreviver e assim ficariam toda a vida.
D. Bosco não se confortava com semelhante situação.
Abriu um curso nocturno, convidou sacerdotes amigos e outras pessoas de boa vontade a ajudá-lo. As aulas eram dadas na cozinha, na sacristia, no coro da capela, onde quer que houvesse um canto livre.
E à noite, enquanto todos descansavam, D. Bosco escrevia livros para os seus rapazes. Eram livros fáceis, económicos, que chegaram a ser adoptados em muitas escolas de Turim.
Mas os rapazes, que enchiam de vida o pátio do Oratório, já não podiam aumentar mais. D. Bosco pensou então em fundar um outro:
— Meus caros amigos, quando as abelhas já não cabem na colmeia, uma parte delas vai em busca de outro lugar. E nós temos de fazer como as abelhas. Vamos formar uma segunda família e abrir outro Oratório.
E o novo oratório surgiu nas proximidades de Porta Nuova, e ficou a chamar-se “Oratório de S. Luís”.
Mas bem depressa também este ficou a transbordar, e D. Bosco fundou um terceiro na zona de Vanchiglia: “Oratório do Anjo da Guarda”.
O dia 2 de Fevereiro foi um dia de grande esperança para D. Bosco. Quatro dos rapazes que tinham vindo da rua, e que ele tinha formado com tanto desvelo, manifestaram-lhe o desejo de “serem como ele”: sacerdotes. Eram eles José Buzzeti, um pequeno servente de pedreiro da Lombardia; Carlos Gastini, o ajudante de barbeiro que lhe tinha feito a barba a tremer; dois outros jovens: Tiago Bellia e Félix Reviglio. Naquele mesmo dia receberam a batina, e começaram a ajudá-lo na assistência aos mais pequenos.
Em 1852 D. Bosco ampliou a velha casa Pinardi, e construiu um novo e grande edifício. Tinha de acolher não só os trabalhadores mas também os estudantes cujo número era cada vez maior.
Com a ajuda dos primeiros clérigos, muito jovens ainda, D. Bosco lançou-se num empreendimento grandioso e arrojado: no espaço de três anos (de 1853 a 1856) abriu as oficinas de sapataria, alfaiataria, encadernação e carpintaria. Começou-se do nada: alguns bancos num pequeno corredor para os sapateiros; duas pequenas mesas para os alfaiates na cozinha. O primeiro mestre-alfaiate foi o próprio D. Bosco, como foi também ele o primeiro a ensinar a bater a sola aos sapateiros aprendizes.
Era a primeira semente que bem depressa viria a trasformar-se numa grande árvore.
Mas onde é que D. Bosco ia buscar o dinheiro para pagar o pão dos seus rapazes e as paredes dos seus edifícios? A esta pergunta o Santo respondia com uma só palavra: “A Providência”. O Senhor despertava benfeitores, inspirava pessoas boas, fazia chegar cartas com ofertas.
E às vezes intervinha directamente de forma prodigiosa.
José Buzzetti viu-o com os seus próprios olhos, em 1849. D. Bosco tinha prometido castanhas cozidas aos seus 400 rapazes. Margarida porém tinha cozido só três ou quatro quilos. O cesto de onde D. Bosco tirava as castanhas com uma grande concha continha uma dúzia de punhados. E no entanto as castanhas chegaram para todos, mesmo para ele, Buzzetti, que recebeu no fim a sua ração como os outros, com olhos arregalados pelo milagre que tinha presenciado ali mesmo.
E Deus mandou um cão
A seita protestante dos Valdenses fazia muitos adeptos entre o povo de Turim, servindo-se inclusivamente do atractivo do dinheiro. Nesse tempo ainda não havia “diálogo”, mas luta aberta entre católicos e protestantes. D. Bosco, embora arrasado de trabalho, fundou em 1853 as “Leituras Católicas”: uma série de pequenos livros de carácter apologético e leitura fácil que avivavam a fé dos católicos.
Quando é que os escrevia? Durante a noite, em que habitualmente só dormia umas horas.
As “Leituras Católicas” provocaram a ira dos Valdenses, que a tudo recorreram para o fazer calar.
Uma tarde, enquanto dava aula aos maiores, um desconhecido disparou-lhe um tiro da janela. A bala passou-lhe rente ao peito e rasgou-lhe a batina. Perante o susto dos alunos, D. Bosco disse apenas sorrindo:
— Nossa Senhora é muito nossa amiga, e aquele sujeito deve ser um fraco atirador.
Depois olhou para o rasgão da batina e acrescentou com tristeza:
— Pouca sorte, era a melhor batina que eu tinha!
Um dia apareceu no pátio um meliante armado de punhal. Procurava D. Bosco para o matar. Como não o conhecia, confundiu-o com um dos clérigos, que fugiu logo pedindo auxílio.
Apesar de a polícia ter sido avisada, o criminoso voltou ainda mais três vezes, enchendo de terror o Oratório.
Uma noite, já muito escuro, chegaram alguns homens a chamar D. Bosco para que fosse confessar uma doente em estado grave.
D. Bosco foi imediatamente. Mas ao ser introduzido num quarto, alguém apagou a luz, e aqueles malvados caíram sobre ele armados de varapaus. D. Bosco mal teve tempo de agarrar numa cadeira e levantá-la para defender a cabeça. Recuando debaixo de uma chuva de pauladas conseguiu dar com a porta e fugir.
Uma noite D. Bosco voltava para casa, quando dois homens lhe barraram o caminho.
Lançaram-lhe uma capa pela cabeça, quando apareceu um grande cão, de cor pardacenta e focinho de lobo, aos urros. Atirando-se com as patas contra o peito de um e depois do outro, pô-los em fuga.
A seguir acompanhou D. Bosco até ao portão do Oratório.
“Todas as noites em que vinha sozinho — conta D. Bosco — ao entrar no arvoredo perto do Oratório, via sempre aparecer o “Pardo”. Os jovens do Oratório viram-no muitas vezes entrar no pátio. Uma vez, espantados, dois rapazes quiseram apedrejá-lo, mas José Buzzetti interveio logo:
— “Não lhe façam mal: é o guarda de D. Bosco”.
Carlos Tomatis, que frequentava então o Oratório, diz a respeito dele: “Era um cão de aparência temível. Muitas vezes Margarida ao vê-lo exclamava: “Oh que animal tão feio”. Fazia lembrar um lobo.
Certa noite D. Bosco tinha de sair para tratar uns assuntos urgentes, mas deu com o “Pardo” deitado na soleira da porta.
Procurou afastá-lo, saltar por cima dele. Mas o cão começa a rosnar e empurrava-o para trás. Margarida, que já conhecia o cão, disse a D. Bosco:
— Se não me queres dar ouvidos a mim, obedece pelos menos ao cão: acho que não deves sair.
No dia seguinte D. Bosco soube que um assassino armado de pistola o esperava numa esquina.
Segue: A morte na cidade de Turim
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