Dom Bosco

Outubro 19, 2007 at 11:15 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a Comment
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Um tambor e muitos polícias

Passamos meses e D. Bosco não consegue encontrar um tecto para abrigar os seus rapazes. Mas não desiste. Fala-lhes ao ar livre, reunindo-os nas praças desertas ou no campo. As pessoas observam. Umas riem, outras sentem pena.

— Mas que padre é aquele?

— É D. Bosco com os seus rapazes!

— Coitado, dizem que tem uma ideia fixa. No meio daquele pandemónio ainda perde o juízo.

Durante o Inverno (Novembro 1845 — Março 1846) aluga três divisões em casa do Pe. Moretta.

Na Primavera consegue alugar um terreno na periferia. Um barracão aqui existente, dá para guardar o equipamento desportivo. Há espaço para a rapaziada — várias centenas — poder divertir-se à vontade. Sentado a um canto, num banco tosco, D. Bosco confessa. Por volta das dez ouve-se o rufar de um tambor militar e os rapazes alinham em filas. Depois toca uma corneta, e aí vão eles para os lados da Consolata ou do Monte dos Capuchinhos, onde participam na Missa celebrada por D. Bosco.

Mas a atmosfera que se respira por toda a parte é de revolução, e aqueles 300 rapazes marchando ao som da corneta e do tambor começam a preocupar o governo piemontês.

O Marquês Miguel de Cavour (pai de Camilo), manda chamar D. Bosco e impõe-lhe várias coisas: reduzir o número de rapazes; evitar absolutamente que entrem na cidade em formatura; excluir os maiores por serem os mais perigosos. D. Bosco opõe-se. A conversa com o ministro acaba em tempestade. Cavour vocifera:

— Mas o que você tem a ver com estes maltrapilhos? Deixe-os lá com a sua vida. Não se meta em sarilhos. A coisa pode tornar-se muito séria para todos!

D. Bosco retira-se sem nada ceder, mas a partir daí o campo de jogos dos seus rapazes começa a ser vigiado pelos agentes da ordem. Os donos do terreno aparecem também um dia. Põem-se a observar a terra toda pisada pelo bater desalmado de todos aqueles tamancos e botifarras. Dirigem-se a D. Bosco:

— A continuar assim isto fica reduzido a um deserto! Temos muita pena, caro padre, mas tudo tem limites. Está despedido.

D. Bosco sente-se fulminado. E agora para onde ir? Já foi escorraçado de tanto lugar…

“Ao cair da tarde daquele dia — escreve D. Bosco — olhei para aquelas centenas de rapazes que se divertiam. Sem ninguém que me desse a mão, sem forças, com a saúde abalada. Afastando-me um pouco, pus-me a passear sozinho e não pude conter as lágrimas: “Meu Deus, exclamei, que fazer agora?”

Nisto aparece não um anjo, mas um homenzinho a gaguejar: Pancrácio Soave, fabricante de soda e detergentes.

— É verdade que você anda à procura de um lugar para fazer uma oficina? (laboratório em italiano).

— Não é bem uma oficina (um laboratório), mas um oratório. (Ambiente de formação religiosa e alegre convívio para a juventude).

— Seja lá o que for, o lugar existe. Se quiser ver…

Seguindo aquele homem, D. Bosco percorre, quando muito duzentos metros.

O “lugar” é um telheiro comprido e tosco, pertencente a um certo Francisco Pinardi. Pegada ao telheiro, uma nesga de terra. D. Bosco corre a dar a notícia:

— Alegrai-vos, meus amigos. Já temos Oratório! Vamos ter igreja, escola e pátio para correr e saltar. No próximo domingo lá nos encontraremos. É aqui ao lado, na casa Pinardi!

5 de Abril de 1846. O próximo domingo é domingo de Páscoa.

Dois padres no manicómio

O telheiro que D. Bosco tinha alugado ao sr. Francisco Pinardi media 15 por 6 metros. Ligado à casa Pinardi (pela parte norte), tinha sido construído havia pouco tempo, e ali trabalhava um chapeleiro e as lavadeiras arrecadavam a roupa. (Passava ali perto um canal que ia dar ao Dória, também pouco distante).

— Aqui havemos de construir a igreja — disse D. Bosco. — É preciso contratar já os operários.

Vieram os pedreiros: escavaram, reforçaram as paredes e o tecto. Depois os carpinteiros assentaram um soalho de madeira sobre o pavimento de terra batida. Os próprios rapazes, muito dos quais eram aprendizes de pedreiro, ajudavam nas poucas horas livres.

Sábado à tarde o edifício estava como novo. D. Bosco lá arranjou como pôde as alfaias indispensáveis para a nova capela. E começou a sentir o peso das dívidas. Um peso que o acompanhará até ao fim da vida. Mas a Providência não havia de abandoná-lo.

12 de Abril: dia grande! Na manhã de Páscoa, todos os sinos da cidade tocavam festivos. Junto à casa Pinardi não havia sinos mas havia a pessoa de D. Bosco que atraía os rapazes para a “baixa” de Valdocco.

Agora que Nossa Senhora lhe tinha aberto o caminho, D. Bosco tinha a certeza de chegar muito longe. Com os colegas falava dos projectos como se já fossem realidade:

— Levantarei escolas e oficinas. Tudo isto para mim é como se já existisse.

A princípio ouviam-no curiosos. Mas depois um ou outro começou a abanar a cabeça:

— D. Bosco tem ideias fixas. Vai dar em doido. Precisa de um tratamento, antes que seja demasiado tarde.

Até o seu mais querido amigo, o braço direito na obra do Oratório, o teólogo Borel, começou a ter os seus receios. Um dia falava-lhe D. Bosco com tanto entusiasmo dos seus projectos que ele não se conteve: lançando-lhe os braços ao pescoço exclamou soluçando:

— Meu pobre D. Bosco! Estás perdido.

Dois outros seus amigos, os padres Pontazi e Nasi alugaram em segredo um quarto no manicómio para lá meterem o colega que julgavam transtornado.

Uma tarde, estava D. Bosco a explicar o catecismo a um grupo, quando chegaram os dois padres num coche fechado. Descem e convidam D. Bosco a dar um passeio com eles.

— Sabemos que andas cansado. Não queres vir dar um passeio connosco?

— Com todo o gosto. É só um momento, que vou buscar o chapéu.

Um dos amigos abriu a porta:

— Sobe.

— Os meus amigos primeiro.

Os dois amigos insistiram ainda, depois entreolharam-se e, para não estragar a festa, concordaram em subir primeiro. Imediatamente, D. Bosco fecha a porta, e grita ao cocheiro:

— Rápido para o manicómio! Esperam lá estes dois clientes.

O coche partiu como uma flecha para o manicómio que ficava perto. Os enfermeiros, que estavam informados da vinda de um padre, ficaram desapontados ao verem dois. Teve de intervir o capelão para deslindar o caso. A partir daquele dia, ninguém mais ousou repetir a façanha.

Segue: O milagre dos pequenos pedreiros

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