Dom Bosco
Outubro 19, 2007 at 11:22 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a CommentTags: biografias, dedicação, determinação, figuras carismáticas
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Subterrâneos e muralhas negras
Que fará agora D. Bosco? São-lhe oferecidas boas propostas para capelão mas o seu projecto é outro: os rapazes. Fica em Turim a aperfeiçoar o estudo da teologia, e a estudar a situação social da cidade.
Tem como professor um jovem padre que se tornará seu amigo e conselheiro por toda a vida: o Pe. José Cafasso. Chamam-lhe “o padre da forca”, porque todo o tempo livre o ocupa a visitar as prisões e a confortar os presos, e quando algum deles é condenado à morte, acompanha-o até à forca.
D. Bosco começa a ir com o seu mestre às prisões. Naquelas enxovias escuras, entre paredes negras e húmidas, encontra caras sombrias e ameaçadoras. Sente calafrios, às vezes quase desmaia.
Mas aquilo que mais o faz sofrer é a presença de presos ainda jovens, de olhos revoltos e sorriso trocista.
Um dia vê, atrás das grades, um grupo de rapazes de pouca idade.
E tal o desgosto que as lágrimas lhe humedecem os olhos.
— Porque chora aquele padre? — pergunta um deles.
— Porque nos quer bem — responde um outro. — A minha mãe também era capaz de chorar se me visse aqui dentro…
Naquele dia, ao sair da cadeia, D. Bosco toma uma resolução firme:
“Muitos vêm para aqui porque ninguém se ocupa deles. É necessário assisti-los, instruí-los; é necessário impedir a todo o custo que rapazes ainda tão novos acabem na cadeia. Quero fazer tudo para os salvar”.
“Chamo-me Bartolomeu Garelli”
8 de Dezembro de 1841. D. Bosco prepara-se para a missa na igreja de S. Francisco de Assis. Entra na sacristia um rapazola. O sacristão, julgando tratar-se de algum valdevinos, põe-no na rua à vassourada.
Mas D. Bosco intervém;
— Que modos são esses? Arruma a vassoura!
— Porquê reverendo?
— Porque é um meu amigo.
— Se assim é. — resmungou o sacristão —, e foi chamar o rapaz.
Este volta comprometido. Tem o cabelo rapado e o casaco sujo de cal. Um rapaz da província. Ao sair de casa, os pais tinham-lhe recomendado que em Turim não deixasse de ir à Missa. Mas ele sentia-se envergonhado em ir para o meio das pessoas bem vestidas. D. Bosco dirige-lhe umas palavras amáveis e pede-lhe que espere um pouco depois da Missa, porque tem uma coisa muito importante a dizer-lhe. Terminada a Missa, leva-o a um canto da igreja e, de sorriso nos lábios, pergunta-lhe:
— Meu bom amigo, como te chamas?
— Bartolomeu Garelli, de Asti.
— Ainda tens pai?
— Não, já morreu.
— E mãe?
— Já morreu também.
— Quantos anos tens?
— Dezasseis.
— Sabes ler e escrever?
— Nem uma coisa nem outra.
— Sabes cantar?
— Não.
— E assobiar?
— Isso sei — e sorriu —. D. Bosco continua:
— Já fizeste a primeira comunhão?
— Ainda não.
— E já te confessaste alguma vez?
— Sim, quando era pequeno.
— E vais à doutrina?
— Não me atrevo. Os rapazes mais pequenos fazem troça de mim…
— E se fosse eu a explicar-te a doutrina, vinhas?
— Com todo o gosto.
— Pode ser aqui mesmo?
— Sim, contanto que não me batam!
— Fica descansado, agora és meu amigo, e ninguém te fará mal. Quando vamos começar?
— Quando o senhor quiser.
— Agora mesmo?
— É só o senhor querer.
D. Bosco ajoelha e reza uma Avé-Maria. Naquele momento nasce o Oratório, começa o grande apostolado de D. Bosco entre os jovens.
Quatro dias depois é domingo. Bartolomeu volta acompanhado de mais oito rapazes. Vêm “para falar com D. Bosco”. No domingo seguinte, D. Bosco vê quatro pequenos serventes de pedreiro a dormir encostados uns aos outros durante a homilia, muito difícil para eles. Acorda-os e convida-os a acompanhá-lo à sacristia.
Aqui aparece também Bartolomeu e os seus amigos. O número aumenta.
D. Bosco ajuda-os o rezar, celebra a missa e faz uma pequena prática ao alcance deles, viva, dialogada, salpicada de histórias e de factos interessantes.
Mais outro domingo e é já uma enchente de rapazes, pobremente vestidos mas de olhos vivos. Procuram D. Bosco, a sua palavra e o seu afecto. O exército de rapazes continua a engrossar, mas o Inverno aproxima-se. É necessário pô-los ao abrigo da chuva e da neve. O primeiro lugar de encontro é o Colégio Eclesiástico em que D. Bosco estuda. No pequeno pátio, o recreio; na igreja ao lado, as funções religiosas, o canto e as sessões de catequese. O Pe. Cafasso aprova e colabora mas os outros começam a reclamar: toda aquela barulheira era insuportável!
De um hospital para um cemitério
No Verão de 1844 D. Bosco acaba os estudos e é nomeado capelão de um orfanato para raparigas doentes, fundado na periferia de Turim pela Marquesa Barolo.
Os rapazes que seguem D. Bosco tornam-se multidão. Centenas deles invadem os campos vizinhos e apinham-se nas escadas e no próprio quarto de D. Bosco, para ouvir a sua palavra.
Agora, que tem um quarto independente, D. Bosco pensa em dar um pouco de instrução aos mais inteligentes.
Da parte da tarde vêm ter com ele em pequenos grupos, com o rosto negro da fuligem ou branco da cal, casaco pelos ombros, radiantes por terem a possibilidade de aprender. Encontram muito difícil a aritmética, o que leva D. Bosco a escrever para eles um dos seus primeiros livrinhos:
“O sistema métrico decimal”.
A Marquesa não suporta durante muito tempo todo aquele barulho. Não conseguindo convencer D. Bosco a abandonar aqueles rapazes para se dedicar unicamente à sua obra, pede-lhe para os reunir noutro sítio. D. Bosco descobre um cemitério abandonado (S. Pedro “in vinculis”) com uma capela espaçosa. No cemitério há umas arcadas e um pátio. O capelão é um seu amigo, o Pe. Tésio. A criada do capelão, ao ver chegar aquela chusma rumorosa de garotos, a princípio fica pálida, depois entra em fúria. Grita, agita a vassoura, insulta D. Bosco. Este acha melhor não insistir e lá segue com os seus rapazes à procura de outro paradeiro.
12 de Julho de 1845. Com autorização da Câmara, D. Bosco muda o acampamento para os lados dos Moinhos da cidade, na margem do rio Dora. Mas passado pouco tempo, também ali os vizinhos se queixam do barulho e da gritaria. Com mágoa, D. Bosco dá a triste notícia aos seus amigos:
— Meus amigos, não podemos continuar aqui.
Mas durante aquela breve estadia nos Moinhos, D. Bosco depara com um rapazito pálido, que o observa em silêncio. Tem apenas 8 anos e chama-se Miguel Rua. D. Bosco tinha distribuído umas medalhas aos seus garotos, mas este miúdo pálido não se atreveu a correr como os outros e acabou por ficar sem nada. Então D. Bosco aproxima-se dele. Estende-lhe a mão esquerda, e fazendo sinal de a dividir ao meio com a direita, disse-lhe sorrindo:
— Toma lá, Miguelinho, toma lá.
O rapazito olha e não compreende. Tomar o quê? Acha esquisito ao ver a mão vazia. Então D. Bosco acrescenta:
— Nós dois vamos fazer tudo a meias.
Aquele rapazito virá a ser o seu primeiro sucessor, à frente da Congregação Salesiana.
Segue: Um tambor e muitos polícias
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