Dom Bosco

Outubro 19, 2007 at 11:31 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a Comment
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Moço de lavoura

Caminha até à quinta Moglia. Recolhe-se um instante em silêncio, como que a ganhar fôlego. Entra finalmente. A família dos Monglia está reunida na eira a preparar os vimes para as videiras.

— Que procuras, meu rapaz? — pergunta-lhe um sujeito ainda novo que pelos vistos deve ser o patrão.

— Procuro Luís Moglia

— Sou eu mesmo.

— Venho da parte da minha mãe, para ver se o senhor me aceita a trabalhar em sua casa.

— Mas assim tão pequeno? Quem é a tua mãe?

— Margarida Bosco. O meu irmão António maltrata-me, e é por isso que venho da parte dela à procura de trabalho.

— Olha, meu rapaz, até ao fim de Março não aceitamos ninguém. É melhor voltar para casa.

— Peço-lhe por tudo que me aceite mesmo sem ganhar nada — suplica Joãozinho — e começa a chorar.

A senhora Doroteia, mulher do patrão, comove-se.

— Deixa-o ficar, Luís. Fazemos a experiência por alguns dias.

João mete-se ao trabalho com determinação, para não ser despedido: trabalha de sol a sol. Depois, enquanto os outros vão dormir, acende um toco de vela, e continua a ler os livros que lhe tinha emprestado o seu professor. E enquanto leva os bois para o campo lá vai ele de livro na mão. O patrão não o contraria, mas abana a cabeça:

— Porque é que estás sempre a ler?

— Porque quero ser padre.

No meio dos torrões, estudar torna-se cada vez mais difícil. Assim se vão passando quase três anos.

Em Novembro de 1829 foi visitá-lo o seu tio Miguel, irmão de sua mãe:

— Então, estás contente?

— Não. Tratam-me bem, mas a minha vontade de estudar… e já fiz 14 anos.

O tio Miguel acaba por levá-lo para casa. António fica irritado com tal decisão, mas depois de discussões e mais discussões, concorda em que João estude contanto que isso não venha a prejudicá-lo na herança.

Um encontro decisivo

Naquele mesmo mês de Novembro de 1829 houve umas pregações especiais numa aldeia vizinha, Buttigliera. Entre a multidão que acorria dos montes, lá estava também João. O capelão de Murialdo, Pe. Calosso (um ancião de 70 anos), ao ver aquele rapaz caminhando sozinho, pergunta-lhe:

— Donde és, meu amigo?

— De Bécchi. Fui à pregação dos missionários.

— O que é que terás tu compreendido, com toda aquela dose de latim!

Mas o nosso homem, com toda a desenvoltura, repetiu ali, de cor, a prática inteira como se estivesse a lê-la num livro.

Pouco depois João estava sentado diante da secretária do Pe. Calosso.

— És um prodígio de memória, meu rapaz. Tens de te meter a estudar. Eu estou velho, mas farei tudo o que puder para te ajudar. Olha aqui a gramática latina. Pelo Natal iremos a ela. Agora vamos ao italiano. Este (e passou-lhe para as mãos um pequeno volume) é um livro de meditação. Lê uma página por dia e reflecte sobre ele… Se não compreenderes, pergunta. Repara bem, o Senhor deu-te uma boa inteligência, e tu deves servir-te dela antes de tudo para O conhecer. Se aprenderes muita coisa, mas não aprenderes a amá-Lo, será vão o nosso trabalho.

A partir daquele dia, João Bosco aprendeu a fazer todos os dias um pouco de meditação.

Alguns dias depois, o Pe. Calosso, de acordo com Margarida, recebeu João em sua casa. O rapaz voltava a Bécchi uma vez por semana para mudar de roupa.

Foram magníficos os meses que João passou em casa daquele grande sacerdote.

A gramática latina, manuseada sem descanso, ia chegando ao fim. Porém, numa manhã de Novembro de 1830, o Pe. Calosso teve um enfarte. João acudiu, fixou aqueles olhos agonizantes e das mãos trémulas do seu benfeitor recebeu, sem compreender, uma chave, e foi tudo.

Nada mais lhe resta senão chorar amargamente a perda do seu segundo pai.

A chave era de um pequeno cofre que continha 6 mil liras. João, aterrorizado com o pensamento de que pudessem levantar-se problemas ensombrando os restos mortais do seu amigo, entregou as chaves aos herdeiros. E tudo acabou.

Joãozinho via-se novamente só, sem mestre, sem dinheiro, sem planos para o futuro. Era caso para desesperar.

10 quilómetros por dia

Apesar de tudo, era necessário continuar, custasse o que custasse. Margarida teve que suportar a humilhação de dividir a casa e as terras com António para acabar com o inferno dentro do lar. E João, decididamente, começou a calcorrear duas vezes por dia a distância de cinco quilómetros a que ficava a escola de Castelnuovo.

Botas a tiracolo e pés doridos do longo caminhar, tinha por companheiros: a chuva e o vento, o sol e a poeira, conforme as estações.

Uma noite, enquanto repousava do cansaço, reapareceu-lhe diante dos olhos o terreiro do primeiro sonho. Lá estava o rebanho e a Senhora resplandecente em atitude de lho confiar. “Torna-te humilde, forte e robusto — repetia — e a seu tempo tudo compreenderás”.

A partir de agora, “D. Bosco”

1835. João Bosco tornou-se um jovem robusto. Tinha estudado e trabalhado duramente. Tinha conquistado centenas de amigos. Agora, com vinte anos, toma a resolução mais importante da sua vida: entra no seminário.

Seis anos de estudo aturado. 5 de Junho de 1841. O arcebispo de Turim impõe as mãos sobre a cabeça de João Bosco, e invoca o Espírito Santo que o consagra sacerdote para sempre. A partir deste momento todos passarão a chamar-lhe D. Bosco (“Dom” é o titulo dado aos padres em Itália).

Naquela tarde, ouve da boca de sua mãe: “Até que enfim és padre. Agora estás mais perto do Senhor. Mas lembra-te de que começar a dizer a missa é começar a sofrer. De hoje em diante, pensa só na salvação das almas, e não te preocupes comigo”.

Segue: Subterrâneos e muralhas negras

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