Dom Bosco (1815-1888)

Outubro 19, 2007 at 11:32 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a Comment
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Terésio Bosco
D. Bosco
Porto, Edições Salesianas, 2002

Um rapaz. 9 anos e 2 vacas. Todos os dias, depois do almoço, pega na aguilhada e toca os animais para o vale. Na sacola leva um bom pedaço de pão branco para a merenda. Lá em baixo espera-o outro garoto da mesma idade e também guardador de vacas. Só uma diferença: este para a merenda leva um pedaço de pão negro.

Um dia, o primeiro rapaz entrega ao companheiro o seu magnífico pão branco:

— Toma lá, é teu.

— E tu?

— Prefiro o teu pão negro.

Aquele rapaz chama-se Joãozinho Bosco. O pai morreu quando tinha dois anos. A mãe, que coze o pão branco no forno e o ensina a ser generoso, chama-se Margarida.

Um sonho aos 9 anos

Uma noite, talvez aquela que se seguiu à troca do pão branco pelo pão negro, Joãozinho teve um sonho. Contá-lo-á ele mesmo algum tempo depois:

“Aos 9 anos tive um sonho, que me ficou profundamente gravado na memória por toda a vida. No sonho parecia-me estar perto de casa, num terreiro amplo, onde brincava uma chusma de garotos. Uns riam, outros blasfemavam. Ao ouvir aquelas blasfémias, caí sobre eles, tentando fazê-los calar, primeiro com boas razões, e depois ao sopapo.
Nisto, apareceu um personagem misterioso, ricamente vestido.
O seu rosto era tão brilhante que me era impossível fixá-lo. Chamou-me pelo nome e disse-me:
— Não é à pancada, mas com bons modos que deves conquistar-lhes a amizade. Começa imediatamente a falar-lhes do mal que é o pecado e do bem que é a virtude.
Confuso e atónito, respondi que era um rapaz pobre e ignorante.
De repente aqueles garotos, já transformados, juntaram-se à volta daquele personagem que lhes falava. Quase sem saber o que dizia, perguntei:
— Quem sois vós que me pedis coisas impossíveis?
— Eu sou filho d’Aquela que a tua mãe te ensinou a saudar três vezes ao dia. O meu nome pergunta-o à minha Mãe.
Naquele momento vi uma Senhora de aspecto majestoso, vestida com um manto resplandecente como o sol. Vendo-me confuso, fez-me sinal para me aproximar. Tomou-me com bondade pela mão e disse-me:
— Olha! — Olhando, verifiquei que aqueles garotos tinham desaparecido todos; e vi então uma chusma de cabritos, cães, gatos, ursos e muitos outros animais.
— Eis o campo em que deverás trabalhar. Torna-te humilde, forte e robusto: e aquilo que neste momento vês acontecer com estes animais, hás-de consegui-lo com os meus filhos.
Olhei de novo, e eis que, em vez de animais bravios, via apenas cordeiros, saltitando e balindo, em ar de festa, em volta daquele Homem e daquela Senhora.
Nisto, sempre em sonho, desatei a chorar e pedi àquela Senhora que falasse mais claro, pois eu não estava a perceber nada. Então ela colocou-me a mão sobre a cabeça e disse-me:
— A seu tempo tudo compreenderás. Ditas estas palavras, acordei com um ruído e tudo desapareceu.
Tinha a cabeça atordoada. Parecia-me sentir as mãos doridas, pelos murros que tinha dado, e a cara a escaldar com os que tinha apanhado daqueles garotos”.

Batem na janela os primeiros raios de sol e já todos lá em casa se levantaram. Joãozinho salta rapidamente da cama, diz uma breve oração e desce a correr para a cozinha, onde estão a mãe, a avó e os dois irmãos José e António. Incapaz de resistir, acaba por contar o sonho com todos os pormenores. Os irmãos dão uma forte gargalhada:

— Virás a ser pastor! — diz o José, em ar de mofa.

— Talvez um chefe de bandidos! — acrescenta o António, com ar escarninho.

A mãe, pelo contrário, fica pensativa. Fita os olhos no filho, inteligente e generoso, e exclama:

— Quem sabe se um dia não teremos aqui um sacerdote!?

A avó, por seu lado, bate impacientemente com a bengala no chão e murmura:

— Os sonhos são sonhos, e não devemos acreditar neles. Agora o importante é irmos comer.

O pequeno saltimbanco

Apesar do parecer da avó, Joãozinho volta ao sonho de vez em quando: pensa nos rapazes que blasfemavam, nos animais bravios transformados em cordeiros, e nas palavras da mãe: “Quem sabe… sacerdote…”.

Conhece já vários desses rapazes: vivem na vizinhança e nas quintas espalhadas pelo campo em redor. Alguns são bons, mas há-os também desordeiros, rudes e desbocados. Porque não começar já a captar a amizade desses rapazes?

Um dia, entra em casa com o rosto a sangrar. Andava a brincar com os companheiros à guerra, e um projéctil de madeira tinha-o atingido violentamente na cara. Margarida faz-lhe o curativo e observa preocupada;

— Qualquer dia voltas para casa sem algum dos olhos. Por que motivo andas com esses rapazes? Tu sabes que há sempre algum atravessado.

— Se é para lhe fazer a vontade, não volto para o meio deles. Mas olhe, que quando estou com eles, portam-se melhor.

Margarida suspira e deixa-o à vontade.

Espectáculo no campo

As cornetas dos saltimbancos ecoam pelas colmas em redor. É a festa do padroeiro da terra. Joãozinho é dos primeiros a chegar. Resolveu “estudar” os truques dos prestidigitadores e os segredos dos equilibristas. Paga dois soldos para poder estar na fila da frente. Volta para casa e faz experiências: caminhar na corda bamba (muitas vezes lá vai ao chão), tirar um frango vivo de uma panela a ferver…

Há que multiplicar os exercícios meses seguidos, ser constante, apesar dos trambolhões.

E numa tarde de Verão, Joãozinho anuncia aos amigos o seu primeiro espectáculo. Sobre um tapete de sacos estendidos no chão, faz prodígios de equilíbrio com latas e caçarolas de cozinha na ponta do nariz. Pede a um pequeno que abra bem a boca e tira-lhe de lá dezenas de bolinhas coloridas. Depois entra em acção a “varinha mágica”. O irmão António chega do trabalho precisamente a meio do espectáculo. Atira para o chão a enxada que trazia às costas e começa a gritar furioso:

— Cá está o palhaço! O mandrião! Eu farto-me de trabalhar, e ele aqui com palhaçadas!

Joãozinho suspende o espectáculo, mas para o recomeçar a duzentos metros dali, debaixo das árvores, longe da vista do irmão. Joãozinho é um palhaço “especial”. Antes do número final, tira o terço do bolso, ajoelha e convida todos os presentes a rezar com ele. Outras vezes repete a prática ouvida na igreja. É a recompensa que ele pede ao seu público, pequenos e grandes, mas os pequenos são a maioria. Depois ata uma corda a duas árvores, salta para cima, e caminha sobre ela de braços estendidos, entre repentinos silêncios e frenéticas ovações dos amigos. Parece que está ali um anjo a ampará-lo, para evitar um brusco trambolhão. Seja como for, o pequeno saltimbanco tem a protecção de Deus, irá crescendo são e forte, e um dia pregará de outros púlpitos, diferentes da corda esticada entre uma pereira e uma cerejeira.

O inimigo de enxada ao ombro

João começa a frequentar a primeira classe primária aos 9 anos, no Inverno de 1824-25 (é seu professor o Pe. Lacqua). Naquele tempo a escola começava a 3 de Novembro e terminava a 25 de Março. Frequenta a 2ª classe primária durante o Inverno de 1825-26. Margarida quer que frequente a terceira no Inverno seguinte, mas António opõe-se ferozmente:

— Que necessidade há de perder tanto tempo? Saber ler e fazer o nome é mais que suficiente. Ele que pegue na enxada como eu. Um dia, por causa de um livro que João colocara sobre a mesa ao lado do prato, levantou-se um escarcéu. João (11 anos) é agredido pelo irmão mais velho (17 anos), que num acesso de fúria o cobre de bofetadas. É impossível continuar assim. E numa manhã de Fevereiro, Margarida disse a João as palavras mais tristes da sua vida:

— É melhor saíres de casa. Qualquer dia António pode cometer um desacato.
João parte à procura de trabalho. Tem 11 anos e meio, e leva consigo uma sacola com duas camisas, dois livros e uma carcaça. Margarida fica a dizer-lhe adeus da soleira da porta, enquanto vê desaparecer por entre o nevoeiro o seu pequeno emigrante.

Segue: Moço de lavoura

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