Dom Bosco

Outubro 19, 2007 às 8:58 pm | Na categoria generosidade, solidariedade, voluntariado | Deixe o seu comentário
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A morte na cidade de Turim

Julho de 1854. Uma notícia alarmante percorre as ruas de Turim: grassa a cólera na Ligúria e está a alastrar como uma mancha de óleo nas aldeias do baixo Piemonte. O rei, a rainha e toda a família real fogem em coches fechados, e refugiam-se no castelo de Casellette, onde vivem os condes Cays.

Entretanto, na periferia da cidade, nos dias 30 e 31 de Julho apareciam os primeiros casos da terrível peste.

5 de Agosto. O bairro mais atingido de Turim é Borgo Dora, que confina com Valdocco. Todos os dias mais de cem vítimas jazem pelas diversas casas e nos lazaretos.

O presidente da Câmara dirige um apelo dramático aos sacerdotes, religiosos e religiosas: morrem pessoas nos lazaretos por falta de médicos e enfermeiras. Precisa-se de gente de boa vontade, disposta a arriscar a vida.

Naquela noite D. Bosco falou aos jovens do seu Oratório:

— O presidente da Câmara lançou um apelo. Se entre os maiores alguém se sentir com coragem de vir comigo aos hospitais e às casas particulares a tratar os doentes da cólera, faremos uma obra boa e agradável ao Senhor. Garanto-vos se procurardes viver todos na graça de Deus a cólera não terá aqui entrada.

Catorze dos maiores deram o seu nome. Poucos dias depois, outros trinta conseguiram obter a licença, apesar de serem ainda muito novos.

Foram dias de trabalho árduo, nada convidativo.

Durante mais de um mês aqueles 44 rapazes voluntários não tiveram mãos a medir. D. Bosco dava o exemplo a todos: sempre pronto a acudir, a confortar, a administrar os sacramentos.

Com as primeiras chuvas do Outono, o número de vítimas foi diminuindo. A 21 de Novembro deu-se por fim o estado de “emergência”.

Um caso ou outro, porém, foi ainda detectado no princípio do Inverno. E foi precisamente nesta altura que se manifestou a santidade de Domingos Sávio, um rapazinho de Mondónio recém-chegado ao Oratório (29 de Outubro).

Passando uma noite pela rua Cottolengo, Domingos fixou os olhos na fachada de uma casa, e como uma voz o chamasse enfiou pelas escadas e subiu apressadamente. Sem hesitar bateu à porta e apareceu o dono da casa.

— Desculpe — disse Domingos — não é aqui que mora uma pessoa atingida pela cólera e que precisa de assistência?

O homem arregalou os olhos:

— Não, aqui não há ninguém com essa doença. Era o que faltava!

— Tem a certeza?

— A certeza completa, que diabo!

— Deve estar enganado. Dá-me licença que entre?

O homem ficou fora de si. Ele sabia perfeitamente que na sua família, graças a Deus, estavam todos bem. Mas a insistência daquele rapaz começou a intrigá-lo.

— Entra, entra e verifica com os teus próprios olhos.

Deram voltas aos quartos, à cozinha, ao armazém. Nada.

— Mas não há mais nenhum quarto, algum canto no sótão?

— Ah! sim — disse o homem batendo com a mão na testa —. Vamos lá acima.

Subiram. E o que foram descobrir? Uma pobre mulher, aninhada a um canto, o rosto contraído pela doença, agonizava.

— Chamem depressa um padre! — segredou Domingos.

— Só faltava esta! — resmungava o pobre homem enquanto descia as escadas a chamar um padre. E lembrou-se então de que aquela infeliz lhe tinha pedido para a deixar ficar ali a dormir durante algum tempo. E nunca mais tinha pensado no assunto.

E uma pergunta importuna lhe martelava o cérebro:

— Como é que este rapaz conseguiu saber?

Com o avançar do Inverno os casos de cólera cessaram completamente. A cidade voltou a respirar.

As grandes realizações

O pequeno punhado dos primeiros clérigos (4) tinha-se multiplicado.

E D. Bosco pensou que era chegado o momento das “grandes realizações”.

Os anos seguintes iriam trazer muito trabalho, problemas cada vez mais difíceis, obras que desafiaram o tempo.

18 de Dezembro de 1859: no pequeno quarto de D. Bosco, nasce a família dos “Salesianos”. Os primeiros dezassete rapazes que manifestaram a vontade de seguir D. Bosco decidem viver unidos na “Congregação Salesiana”, com vista a trabalhar sempre a favor dos rapazes pobres.

30 de Julho de 1860: sobe os degraus do altar para celebrar a sua primeira Missa o Pe. Miguel Rua, o rapazinho pálido que D. Bosco encontrou nos moinhos, junto ao Dora, e ao qual tinha oferecido metade da sua mão. Ele vai tornar-se agora um outro D. Bosco, a sua sombra fiel.

Abril de 1864: no campo de Valdocco, D. Bosco lança a primeira pedra do Santuário de Maria Auxiliadora. Põe nas mãos do construtor a primeira soma de dinheiro: oito soldos.

1872: D. Bosco funda a congregação das Filhas de Maria Auxiliadora.

Às primeiras irmãs diz:

— Sois poucas e pobres, mas haveis de ter tantas alunas que nem sabereis onde metê-las.

11 de Novembro de 1875: no Santuário de Maria Auxiliadora, apinhado de gente comovida, D. Bosco entrega o crucifixo aos primeiros dez missionários salesianos que partem para a América do Sul. Chefe da expedição é João Cagliero, um dos primeiros rapazes do Oratório. Nascem assim as Missões Salesianas, que se estenderão por todo o mundo.

9 de Maio de 1876: Pio IX aprova os “Cooperadores Salesianos”, a quem D. Bosco chama “salesianos externos”. São os amigos das suas obras, que trabalham pela juventude e o ajudam com meios financeiros.

Antes de morrer, D. Bosco dir-lhes-á:

— Sem a vossa ajuda eu pouco ou nada teria feito.

1877: D. Bosco funda o “Boletim Salesiano”, órgão de ligação entre os cooperadores (que já eram centenas de milhar). É uma revista mensal que leva, a todos os associados, notícias da Congregação, as cartas dos missionários, a palavra viva de D. Bosco.

Mas quanto mais obras salesianas se estendiam pelo mundo, maiores somas de dinheiro eram precisas. Para sustentar as missões da América, para alimentar milhares de rapazes abandonados, nos últimos anos da sua vida D. Bosco viu-se obrigado a peregrinar pela Itália, pela França e pela Espanha, em busca de meios. Foi um trabalho extenuante.

Nossa Senhora abençoou visivelmente estas viagens: as mãos de D. Bosco restituíam a vista aos cegos, o ouvido aos surdos, a saúde aos enfermos. Por toda a Europa já era conhecido como “o padre que faz milagres”.

Maio de 1887: D. Bosco tinha terminado a sua última viagem à Espanha a pedir ajuda. O Papa incumbira-o de construir em Roma um templo ao Sagrado Coração de Jesus.

Agora, curvado pelos anos e pela fadiga, sobe ao altar do grandioso templo para celebrar a Eucaristia. Os seus olhos arrasam-se de lágrimas. E não consegue contê-las até ao fim da celebração. A seguir é preciso levá-lo à sacristia. O Pe. Viglietti (que estivera junto dele durante toda a Missa) pergunta-lhe ao ouvido:

— O que é que tem, D. Bosco?

E ele, de novo entre lágrimas:

— Representou-se diante de mim, com toda a nitidez, a cena do primeiro sonho, aos nove anos. Estava a ver e ouvir o que a minha mãe e os meus irmãos diziam a respeito do meu sonho…

Naquele sonho distante Nossa Senhora afirmara-lhe:” A seu tempo tudo compreenderás”. Agora, num olhar retrospectivo, parecia-lhe compreender tudo perfeitamente. Tinha valido a pena enfrentar tanto trabalho, tantos sacrifícios, para salvar tantos rapazes.

Morreu na madrugada de 31 de Janeiro de 1888. Aos salesianos, que velavam junto dele, murmurou nos derradeiros momentos:

— O importante é fazer bem a todos, e mal a ninguém!… Dizei aos meus rapazes que os espero no céu.

Terésio Bosco
D. Bosco
Porto, Edições Salesianas, 2002

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