Madre Teresa de Calcutá
Outubro 19, 2007 at 8:39 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a CommentTags: biografias, dedicação, determinação, figuras carismáticas, pobreza
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No templo de Kalì
Um dia, numa viela lamacenta, Madre Teresa encontra uma mulher roída pelos ratos. Está quase a morrer. As duas salas da casa Gomes estão superlotadas, não há possibilidade de meter lá mais ninguém, nem esta pobre mulher que está quase a morrer. Madre Teresa carrega com ela nos braços e leva-a ao hospital mais próximo. Não a aceitam, “não há lugar”. Enquanto se dirige a outro hospital mais distante, a mulher morre-lhe nos braços.
Madre Teresa não se dá por vencida. Tem de encontrar um lugar espaçoso para hospedar todos aqueles que estão a morrer de fome, para doenças que não são mortais mas que matam os mais fracos, para as terríveis chagas que a falta de alimento e de higiene abrem nos corpos.
Não muito longe dali, ergue as suas cúpulas e as suas grandes colunas o Kalìghat, templo da deusa Kalì, protectora de Calcutá. No recinto do templo, há duas salas enormes, destinadas a dormitório para os peregrinos que, no mês de Outubro, chegavam de todos os pontos da região. As duas salas, uma para os homens e a outra para as mulheres, estão vazias onze meses por ano. Madre Teresa pede, às autoridades da cidade, licença para poder utilizar as salas para recolher os moribundos. É um pedido muito arriscado, mas as autoridades, que estão fazendo todo o esforço para pôr um dique a tanta miséria na periferia, concedem-lhe a licença.
Os hindus fanáticos, logo que sabem do caso, organizam motins. “É uma contaminação do templo!”, dizem. “Uma freira católica que abre um asilo no recinto sagrado é uma profanação!”
“De acordo — respondem as autoridades. — Mandai vossa mãe ou vossa irmã a tratar dos moribundos e dos leprosos para o lugar da Madre Teresa, e nós mandá-la-emos embora”. É claro que ninguém se apresentou. E a Irmã foi deixada em paz.
Um brâmane vestido de garça
O jornalista Francisco Rosso, que foi visitar o templo de Kalì e o asilo da Madre Teresa, escreveu:
“Entre casas arruinadas, o templo de Kalì, deusa da destruição, eleva-se, terrível, sobre as multidões exaltadas, sobre os desprezados que correm a aplacar a deusa malvada com ofertas de flores, dinheiro e sangue. Kalì zomba do alto da sua estátua, toda negra, com horrorosos olhos brancos e língua vermelha, disposta a sugar o sangue dos sacrifícios que lhe são oferecidos. Todas as manhãs, um cabrito negro é levado à força até ao templo, um sacerdote encaixa-lhe a cabeça numa picota e degola-o. Parte do sangue, recolhido num recipiente, é levado em procissão até à estátua da deusa… Mulheres, vestidas com elegantíssimos saris e um enorme brilhante na narina direita, compravam colares de cor escarlate, velas de incenso, punhados de arroz que em seguida depunham diante da estátua de Kalì. Era meu guia um pequeno Brâmane vestido de garça, com os sinais cabalísticos da casta na testa: traços de gesso branco e estrias de bosta de vaca. Saí do templo agoniado pela náusea, fui procurar Madre Teresa na casa onde se refugiam os recusados da sociedade, homens e mulheres que, pelo menos, não morrem sem terem ouvido uma palavra de piedade, talvez a única em toda a sua desesperada existência.
“Madre Teresa não estava lá. Estava no convento que serve de quartel general na luta contra a fome e a lepra, em Lower Circular Road. Mas encontrei um engenheiro alemão, de Colónia, ainda jovem, que tinha deixado a sua brilhante carreira e tinha vindo para Calcutá. Quando o jornalista entrou, o jovem alemão estava inclinado sobre um homem mirrado pela fome e falava-lhe em voz baixa numa língua que o pobrezinho não compreendia. “Acabam de trazê-lo — disse — e ainda não tivemos tempo de lavá-lo, nem de vesti-lo. Não deve viver muito tempo”. Expirou poucos minutos depois. Não teve sequer energia para exalar o último suspiro.
“Por que o faz?”
“Eu olhava à minha volta, para aqueles pobres exangues — escreve Francisco Rosso —, oitenta homens e setenta mulheres, uns destruídos pela subnutrição, outros devorados pela lepra. Olhando para o jovem engenheiro, perguntei-lhe: «Por que o faz? Não tem medo da lepra?». «São Francisco beijou o leproso» — respondeu. «Eu apenas os trato».
“Fomos ao encontro da Madre Teresa no cinzento convento central. Daqui dirige novecentas irmãs e uma centena de “pequenos irmãos”. Entre outras coisas, controlam e tomam conta de oito mil leprosos, que continuam a ficar nos passeios de Calcutá, com sulfamidas e vitaminas. “O difícil é tomar conta deles” — diz um dos pequenos irmãos. “Mudam de um passeio para o outro, e os tratamentos tomam-se ocasionais, portanto, infrutíferos”. “É uma gota de água no mar o que fazemos”, diz Madre Teresa. “Pense que só em Calcutá há sessenta mil leprosos e quatro milhões na Índia”.
Ao Nirmal Hriday não se vai só para morrer. Desde a sua abertura, em 1972, já foram hospitalizados 27 mil moribundos; 14 mil foram salvos e puderam, apesar de tudo, retomar a vida.
Num dia de calor tórrido e sufocante de Maio — conta Maria Dainotti — é levada, de ambulância, ao Nirmal, uma mulher, reduzida a um pequeno montão informe e malcheiroso. Madre Teresa levanta aquele corpo descarnado, mais semelhante a uma radiografia do que a uma pessoa. As chagas abertas narram bem uma longa história de sofrimentos. Enquanto lava delicadamente todo o corpo com água e desinfectante, convida uma outra irmã a aplicar-lhe tónicos cardíacos, e uma terceira a trazer uma sopa morna. A mulher reanima-se, os olhos que fixavam o vazio retomam vida. Murmura:
— Por que fazes isto?
— Porque te quero bem — disse em voz baixa Madre Teresa.
A mulher, fazendo um grande esforço, pega-lhe na mão:
— Torna a dizê-lo.
— Quero-te bem! — repete com doçura.
— Torna a dizê-lo, torna a dizê-lo… A mulher aperta-lhe as mãos, puxa-as para si. Nos seus lábios aparece uma sombra de sorriso.
“Foi meu filho que me lançou”
Mas há outras chagas profundas que não se conseguem curar, nem sequer diminuir-lhes a dor.
Duas irmãs da Madre Teresa, passando junto a uma montanha de lixo, ouvem um lamento quase contínuo. Abrem caminho através dos desperdícios e encontram uma velha deitada de bruços entre o lixo. Enquanto a transportam ao Nirmal Hriday o lamento continua, como uma débil buzina bloqueada. Somente depois de a terem reanimado e curado, o lamento se transforma numa cantilena de palavras cheias de desolação: “Foi o meu filho que me lançou para aqui”.
A Índia, que ama e respeita os animais, conta, cada ano, centenas de milhares de recém-nascidos e de velhos lançados nas lixeiras.
Nove décimos dos moribundos recolhidos pela Madre Teresa são “párias”, imundos e intocáveis. Na Índia, a religião hindu impôs a desumana divisão em “castas”. A casta mais baixa, os “párias”, é uma classe de gente infeliz e desprezível, destinada aos trabalhos mais repelentes. Os das castas superiores não lhes podem tocar nem mesmo com, o olhar. Gandhi lutou com jejuns extenuantes para que a sociedade indiana reabilitasse os “párias”, rebaptizados por ele “filhos de Deus”. Mas quase nada conseguiu.
Ao Nirmal Hriday, chegam um dia os estudantes de medicina da Universidade. Começam a servir e a medicar os miseráveis da Madre Teresa sem olhar a distinção de casta. Prometem voltar todos os sábados. Senhores de castas elevadas vêm, regularmente, a lavar as chagas dos moribundos. É uma coisa pequena. Mas, na Índia das castas, é um milagre.
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