Madre Teresa de Calcutá
Outubro 19, 2007 at 8:42 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a CommentTags: biografias, dedicação, determinação, figuras carismáticas, missionários, pobreza
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18 anos: que rumo dar à vida?
Em criança, Madre Teresa chamava-se Agnes Gonxha Bojaxhiu. Vivia em Skopje, uma cidade que, muitos anos depois, seria destruída por um terramoto. Quando Agnes nasceu (1910), Skopje pertencia à Albânia, passando depois para a posse da Jugoslávia.
Quando frequentava as escolas da cidade, Agnes começou a fazer parte de um grupo juvenil muito empenhado. O assistente do grupo era um jovem padre jesuíta. Por essa altura, os jesuítas de Skopje abriram uma missão perto de Calcutá.
À sua pátria chegavam cartas dramáticas, que descreviam o estado de extremo abandono em que vivia a gente da Índia. Aos 12 anos, Agnes ouviu ler aquelas cartas no seu grupo e começou a pensar: “gostaria de ir para a missão de Calcutá”. Era o começo, simplicíssimo, de uma vocação.
1928. Agnes tem 18 anos. O futuro começa a ser uma preocupação constante: “que rumo dar” à sua vida. A ideia das missões apodera-se dela cada vez mais. Reza, para que aquilo não seja uma fantasia. Pergunta ao confessor: “Como posso saber que Deus me chama?”. Ouve a resposta: “Através da alegria. Se o pensamento de dedicar a vida a Ele e aos irmãos te causa alegria e paz, uma alegria profunda e tranquilizante, há razões sérias para pensar que Deus te chama. A alegria profunda funciona como bússula, mesmo quando aponta um caminho duro e difícil”.
O pensamento de se tornar missionária desperta, de facto, nela uma alegria tranquila e profunda. Consegue a autorização do pai e da mãe, e faz o pedido para entrar nas “Irmãs de Loreto”, que têm a casa-mãe na Irlanda e muitas missões na Índia.
Depois de uma breve estadia em “Loreto Abbey” de Rathfarnham, nas proximidades do Danúbio, foi enviada para Dajeeling, na Índia.
Torna-se professora na “St. Mary High School” de Calcutá. A escola estava situada no bairro mais elegante da cidade e era frequentada pelas raparigas das famílias mais ricas. Durante alguns anos, a Irmã Teresa foi também directora da escola.
Deus chama pela segunda vez
1943. Em plena guerra mundial, uma grande fome abate-se sobre Bengala. Dois milhões de pessoas morreram de fome nos campos desolados por uma seca invulgar. O pensamento de todas aquelas vítimas, e de tantos milhares, que morrem nas ruas de Calcutá todos os dias, começa a atormentar a Irmã Teresa. Parece-lhe absurdo continuar a ensinar um pequeno número de privilegiados, enquanto tantos dos seus irmãos morrem a poucos metros ou a poucos quilómetros de distância, no mais completo abandono. Embora nunca se tenha limitado a ensinar superfícies e montanhas, mas também procurado sensibilizar as suas alunas para o grave problema dos pobres e marginalizados, parece-lhe que, nesta circunstância trágica, é preciso fazer alguma coisa mais, empenhar-se pessoalmente.
Um dia, intui que este sentimento bem poderá ser uma segunda chamada de Deus. Para estar segura, dirige-se à Superiora da sua Congregação e, depois, ao arcebispo de Calcutá, D. Perier. Expõe o projecto de deixar o convento e de viver entre os pobres.
A resposta é um “não”. Porém, não se irrita. Continua a ensinar com serenidade na “High School”. Se aquele sentimento for verdadeiramente a vontade de Deus, Ele vai mostrar-lhe o caminho. “Os bispos — diz — não podem certamente permitir às irmãs que formem grupos separados cada vez que vima delas imagina que Deus lhe falou”.
Mesmo depois da recusa seca, D. Perier não rasgou a carta da Irmã Teresa.
Tem-na à mão sobre a sua mesa de trabalho e, de quando em quando, toma a lê-la. Esta Irmã Teresa não pede para abandonar a vida religiosa, mas para vivê-la de maneira diferente, mais em contacto com a gente pobre que morre no maior abandono. Quer seguir urn caminho que grandes santos já antes dela traçaram na Igreja, de Vicente de Paulo ao Cottolengo. Não é, pois, uma coisa estranha.
Ela, no entanto, conclui que será melhor apresentar o assunto ao Papa. Será ele quem vai decidir.
A resposta de Roma chega a 7 de Agosto de 1948. Pio XII está de acordo. A Irmã Teresa pode sair do convento e fazer a sua experiência de viver entre os pobres, sob a responsabilidade do arcebispo.
Teresa deixa o hábito de religiosa e veste um sari branco, como as mulheres pobres da Índia. Com um par de sandálias nos pés nus, algumas rupias no bolso e uma grande fé no coração, deixa o centro de Calcutá e dirige-se para as barracas da imensa periferia.
Cidade branca e cidade negra
Quem quer fazer uma ideia de Calcutá sobe à torre chamada Ochterlony Monument. Lá de cima, aquela imensa cidade, a que Nerhu chamou “Cidade pesadelo”, aparece nitidamente com as suas duas faces: bairros elegantes, ruas amplas, soberbos arranha-céus na “cidade branca”; inumeráveis pequenas barracas, casebres pardacentos que se estendem até se perderem com o horizonte nebuloso na “cidade negra”.
A primeira foi construída pelos comerciantes ingleses e é hoje habitada pelos hindus ricos.
A segunda é um imenso formigueiro humano aonde chegam todos os dias multidões de pessoas anónimas, que abandonam o campo devastado pela terrível seca ou pelas chuvas diluvianas. A enchente de miseráveis lança-se para o interior da cidade chegando a infiltrar-se na grande estação ferroviária de Hwrah, a maior estação dos caminhos-de-ferro da Índia. Mendigos reduzidos a esqueletos vivos, crianças famintas e sujas, leprosos refugiados nos montes de lixo, voo baixo de corvos e abutres. Para quem visite Calcutá, a fome e a morte são o cartão de visita desta imensa e babélica “cidade negra”.
Teresa conhecia muito bem Calcutá. Deixando a “cidade branca”, passou a viver na “cidade negra”.
Depois de uma sumária preparação médico-sanitária recebida na “Missão médica americana”, começou a sua missão reunindo as primeiras crianças abandonadas que encontrou. Cinco no primeiro dia, vinte e uma no segundo, quarenta no terceiro… Ensinou-as a lavar-se. Depois, como não tinha um quadro preto, começou a ensinar a ler e a escrever, fazendo riscos no chão.
Passava o resto do tempo ao lado dos moribundos, estendidos ao longo das ruas. Sentava-se junto ao primeiro leproso que encontrava, desinfectava-lhe as chagas e ligava-lhas. “Tinha apenas cinco rupias no bolso — recorda. — Não podia fazer mais”.
“Quero trabalhar contigo em favor dos pobres”
A escassez de alimentos que tem à sua disposição e a imensidão da miséria abalam a sua saúde logo nos primeiros dias. “Tenho a impressão — escreve — de naufragar num oceano de dor e de desolação”. A fome e o cansaço obrigam-na a pensar seriamente num possível regresso à “St. Mary High School”. Mas recompõe-se.
Michael Gomes, um funcionário governamental, oferece-lhe duas salas na sua casa. Teresa enche-as de doentes. As antigas alunas vêm dos bairros ricos de Calcutá visitá-la. Levam-lhe arroz e algum dinheiro. Duas delas pedem-lhe que as deixe cuidar das crianças enquanto ela se ocupa dos doentes. “É tão belo não se sentir só! — escreve. — É belo poder oferecer aos doentes uma tigela de arroz, quente e reconfortante!”.
No dia 19 de Março, chega àqueles dois aposentos Shubashini Das, uma linda rapariga de 19 anos. Foi sua aluna e pertence a uma rica família católica. “Quero trabalhar contigo em favor dos pobres” — diz-lhe. “Mas não só durante algumas horas. Para sempre, como tu”.
Teresa procura desencorajá-la, falando-lhe das imensas dificuldades que irá encontrar. Das, porém, está irredutível. Deixa o belíssimo sari de seda, veste um de algodão branco como o de Teresa e fica. É ela a primeira a chamá-la “Madre Teresa”.
Depois dela, outras virão: cerca de novecentas.
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