Joana Jugan
Outubro 20, 2007 at 3:09 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a CommentTags: biografias, carisma, dedicação, Irmãzinhas dos Pobres
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«Tirou-me a minha obra»
(1852-1856)
Analisemos, um pouco, o estranho percurso do abade Le Pailleur — que, na verdade, apenas se explica por uma falha subtil, mas sem dúvida profunda, na sua personalidade. Em 1843, tinha impedido a reeleição de Joana Jugan como superiora para confiar esta responsabilidade à sua filha espiritual, Maria Jamet. Nos anos seguintes, a sua influência sobre a obra tornou-se cada vez maior, enquanto Joana pedia, infatigavelmente, para as novas casas, trabalhava directamente na inauguração de outras duas, acorria para apoiar e salvar as que estavam prestes a acabar, garantia, com a sua presença e com o seu nome, o valor e o dinamismo das iniciativas tomadas para bem dos velhinhos desprotegidos.
Uma vez obtida a aprovação episcopal e conseguida a instalação da casa-mãe em Rennes, o abade Le Pailleur tomou uma decisão que ia modificar totalmente a existência de Joana: chamou-a para a casa-mãe. A partir de então, ela nunca mais teria contacto com os benfeitores, nem teria funções importantes na congregação; viveria escondida atrás das paredes de «La Piletière», ocupada em tarefas humildes.
Joana tinha pouco menos de 60 anos e estava em plena actividade, mas obedeceu humildemente. E aí ficou — em Rennes e, depois, em La Tour S. Joseph, em Saint-Pern sem responsabilidades, até à sua morte, quer dizer, durante vinte e sete anos.
Em «La Piletière» ela viverá na pequenez, e será a partir de então, a «Irmã Maria da Cruz». No interior da congregação quase nunca mais se empregou o seu nome de Joana Jugan. Mas lá fora, ele continuou vivo em quantas memórias!
Ao princípio, Joana foi encarregada de dirigir o trabalho manual das postulantes, muito numerosas: sessenta e quatro, em 1853.
Permanecerá para sempre a recordação da sua bondade, da sua doçura para com elas. Amou sempre as jovens e foi amada por elas. Não reivindicava nada, vivia plenamente o seu apagamento. Muito mais tarde, uma Irmã escreveu: «Nunca lhe ouvi dizer a mais pequena palavra que pudesse fazer supor que ela tinha sido a Primeira Superiora Geral.
Joana falava com tanto respeito, tanta deferência das nossas primeiras «boas Madres; (superioras) era tão modesta, tão respeitadora nas suas relações com elas…» Viu morrer, com 32 anos, uma das suas primeiras Irmãs, Virgínia Trédaniel. Terá sido esta morte ou o seu próprio sofrimento ou a recordação das primeiras provas da fundação, o que a levou a dizer um dia às postulantes: «Fomos enxertadas na Cruz».
Este enxerto estava bem vivo. A Igreja reconheceu-o como seu. No dia 9 de Julho de 1854, o Papa Pio IX aprovou a Congregação das «Irmãzinhas dos Pobres», o que constituiu uma profunda alegria para a fé de Joana.
Para se fazer reconhecer como fundador e superior geral deste novo Instituto, o Abade Le Pailleur tinha, pouco a pouco, deturpado a história da sua origem. Durante os 36 anos que se seguiram, as jovens, que entraram para a congregação, apenas aprenderam uma história falsificada, segundo a qual Joana aparecia como a terceira «Irmãzinha dos Pobres». O abade exigia provas de respeito absolutamente excessivas, exercia sobre a congregação uma autoridade total: tudo passava pelas suas mãos; todas as decisões eram tomadas por ele. Em tudo era necessário recorrer-se a ele.
Mas a surpresa e mesmo o escândalo, acabaram por ser conhecidos pelas autoridades. Procedeu-se a um inquérito por decisão da Santa Sé e, em 1890, o abade Le Pailleur foi destituído e chamado a Roma onde terminou os seus dias num convento.
Durante mais de 40 anos, Maria Jamet tinha-lhe sido docilmente submissa, pensando que estava a proceder bem. Mas fora frequentemente atormentada entre o que pensava ser o seu dever de obediência e o respeito pela verdade. Pouco antes de morrer, reconheceu: «Não sou eu a primeira Irmãzinha dos Pobres, nem a fundadora da obra. É Joana Jugan que é a primeira fundadora das «Irmãzinhas dos Pobres».
Joana vivera tudo isto com uma mistura de dor e de confiança; estava lúcida e não podia estar de acordo, mas a sua fé elevava-se acima destas manobras. Mantinha o coração bastante livre para poder dizer, de brincadeira, ao Abade Le Pailleur, o que pensava dele: «O Senhor Padre roubou-me a minha obra, mas eu cedo-lha de boa vontade!».
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