Joana Jugan
Outubro 20, 2007 at 3:14 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | 1 CommentTags: biografias, dedicação, figuras carismáticas, Irmãzinhas dos Pobres
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Um turista inglês e um jornalista francês falam de Joana
Voltemos um pouco atrás. No princípio de Agosto de 1846 Joana e Marie Jamet ocuparam, em Dinan, uma velha torre abandonada.
Três semanas mais tarde, um turista inglês bateu à porta; vinha ver Joana Jugan. Publicou, posteriormente, um relato da sua visita do qual damos, a seguir, a tradução parcial: «Para chegarmos ao local que elas ocupavam, era preciso subir uma difícil escada de caracol; o andar era baixo, as paredes nuas e grosseiras as janelas pequeninas e com grades de ferro, de modo que parecia que se estava numa caverna ou numa prisão; no entanto, esta aparência sombria era um pouco alegrada pela claridade da lareira e pelo ar feliz dos que ali habitavam (…).
«Joana recebeu-nos com uma expressão bondosa (…). Vestia um vestido preto, muito simples e muito limpo, uma touca e um lenço brancos; era o uniforme adoptado pela comunidade. Aparenta ter perto de 50 anos, é de estatura média, tem a pele queimada e parece cansada; mas a sua fisionomia é serena e cheia de bondade, não denotando o mais pequeno sintoma de pretensão ou de amor-próprio.
Desenrolou-se, então uma verdadeira entrevista entre este turista — que era também um homem de bem, ocupado na criação de um hospício de velhinhos — e Joana Jugan que respondeu, com simplicidade, às suas perguntas. «Ela não sabia donde lhe viriam as provisões para o dia seguinte, mas perseverava, com a firme convicção de que Deus nunca abandonaria os pobres e agia segundo este princípio certo: que tudo o que se faz por eles, faz-se por Nosso Senhor Jesus Cristo. «Perguntei-lhe como é que ela podia distinguir os que se lhe dirigiam e que pareciam mais miseráveis, mais desamparados; que começava pelos velhinhos e pelos doentes visto serem eles os mais necessitados e que se informava, junto dos vizinhos deles, da sua maneira de ser e dos seus recursos, etc.
Para não deixar ociosos os que ainda podiam fazer qualquer coisa, mandava-os desfiar e cardar velhos bocados de tecido e depois fiar a lã que obtinham; chegavam assim a ganhar seis «liards» (antiga moeda de cobre, francesa, equivalente a um quarto de soldo) por dia. Faziam também outros trabalhos, segundo as suas possibilidades e recebiam um terço do ganho obtido».
«Eu disse-lhe que depois de ter percorrido a França, ela deveria ir a Inglaterra ensinar-nos a tratar dos nossos pobres; Joana respondeu-me que, se Deus ajudasse, iria, se fosse convidada.
«Há nesta mulher qualquer coisa de tão calmo, de tão santo que, ao vê-la, eu pensei que estava na presença de um ser superior. E as suas palavras iam tão direitas ao meu coração que, não sei bem porquê, os meus olhos se encheram de lágrimas. Assim é Joana Jugan, a amiga dos pobres da Bretanha e só o facto de a ver bastaria para me compensar dos horrores de um dia e de uma noite passados num mar encapelado».
Crescimento
A «casa-mãe» e o noviciado encontravam-se, desde as suas humildes origens, no antigo convento da Cruz, em S. Servan. Mas já não havia lugares suficientes, desde o fim do ano de 1847, para albergar, além das pessoas idosas, as quinze postulantes e noviças que tinham iniciado a sua formação.
Como o abade Le Pailleur, o conselheiro de Maria Jamet, tinha tido algumas dificuldades com o bispo de Rennes, foi decidido instalá-las na casa de Tours, recentemente fundada. A partir dessa data, as jovens vão, aliás, afluir cada vez em maior número; no Verão de 1849, haverá já quarenta.
No dia l de Agosto, começou uma nova fundação: uma casa em Paris. Tinha sido pedida pela Conferência de S. Vicente de Paula, que tinha conhecido a obra através do Sr. D’Outremont. No fim do mesmo ano de 1849, duas outras casas começavam a surgir: uma em Besançon e outra em Nantes. Foi em Nantes que se espalhou o nome das «Irmãzinhas dos Pobres», o qual se tornou designação oficial um pouco mais tarde. A intuição popular tinha encontrado o qualificativo que melhor exprimia a intenção de Joana: excluindo toda a espécie de domínio, fazer-se pequenino, amar melhor.
Joana não tinha participado, directamente, na fundação das casas de Paris, de Besançon e de Nantes. Em contrapartida, foi ela que fez nascer a casa de Angers. Vejamos como.
Prosseguindo, incansavelmente o seu peditório, Joana chegou a Angers em Dezembro de 1849, onde já era esperada por várias famílias.
Ia pedir para as outras casas já feitas, mas teve, desde a sua chegada, (como em Rennes) a ideia de dotar a cidade de Angers — que a tinha recebido tão bem — de um asilo para os pobres velhinhos.
Graças a um padre, que era vigário geral em Rennes, encontrou-se rapidamente uma casa que foi inaugurada em Abril de 1850. Entretanto, Joana voltou, provavelmente, a Tours com o produto do seu peditório e, depois, foi pedir para outras cidades.
A 3 de Abril, regressou, então, a Angers em companhia de Maria Jamet e de duas jovens Irmãs. O Bispo Mons. Angebault, recebeu-as de braços abertos. Como acontecia em toda a parte, chegaram de mãos vazias: as quatro apenas tinham seis francos na bolsa, para começar a obra.
Obtiveram as autorizações necessárias, instalaram-se e começaram a pedir. Dois dias depois, Maria Jamet regressava a Tours, «já consolada» e acompanhada de duas postulantes angevinas. No fim de Abril, acolhiam-se os primeiros velhinhos. Os donativos afluíam; um dia, porém, não havia manteiga; Joana viu que os velhinhos comiam o pão seco: «Mas nós estamos na terra da manteiga» disse ela. «Como não se lembraram de a pedir a S. José?» E acendeu uma lamparina diante da estátua do Pai que dá os alimentos; mandou trazer todas as manteigueiras vazias e colocou um letreiro: «Bom S. José mande manteiga para os nossos velhinhos!». Os visitantes ficavam admirados ou achavam graça a esta ingenuidade. Um deles exprimiu a sua desconfiança na eficácia do processo.
Mas sob estas manifestações ingénuas escondia-se uma tal Fé! Alguns dias mais tarde, um benfeitor anónimo mandou entregar uma grande quantidade de manteiga e todas as manteigueiras ficaram cheias.
Joana queria que a casa dos Pobres fosse alegre. Apoiada pela rede angevina de amizade foi um dia ter com o coronel que comandava uma unidade, em guarnição, em Angers e pediu-lhe que mandasse, na tarde de um dia de festa, alguns músicos do regimento para alegrar os seus bons velhinhos. «Minha Irmã, vou mandar-lhe a banda toda para lhe dar prazer e para alegrar os seus queridos velhinhos».
Esta fanfarra de Angers parece acompanhar com alegria o amor que se dá e que suscita o amor.
Joana deixou Angers para ir pedir noutras cidades. Durante o Inverno de 1950-51, assinala-se a sua presença em Dinan, em Lorient e em Brest.
Nesta última cidade, encontrou uma senhora muito empreendedora, que não a encorajou nada. Joana ouviu-a, reflectiu e concluiu: «Pois bem, minha querida Senhora, nós tentaremos!». E pôs-se a pedir acompanhada por uma amiga. Chegaram a uma casa conhecida por ser pouco acolhedora; a sua companheira propôs que seguissem em frente. Mas Joana, puxando o cordão da sineta, respondeu: «Toquemos, pensando em Deus e Deus nos abençoará». A esmola foi generosa. Enquanto despertava nas pessoas o sentido da partilha e recebia os seus donativos, Joana continuava atenta ao desenvolvimento da família que tinha nascido dela.
Depois de Angers, foram as inaugurações de Bordéus, Rouen e Nancy, nas quais, aliás, Joana não tomou parte directamente.
Depois, foi a primeira casa de Inglaterra, nos arredores de Londres.
Charles Dickens tinha ido, havia algum tempo, a Paris e tinha visitado o asilo recentemente fundado pelas Irmãs. Muito impressionado, escreveu um artigo no seu semanário «Household words» (14 de Fevereiro de 1852), onde descrevia a casa da rua Saint-Jacques depois de evocar a sua origem «… Um velhinho tem os pés sobre a braseira e murmura com uma voz fraca, que agora está bem confortável porque tem sempre calor. A recordação do frio dos anos e do frio das ruas, está gravada na sua memória, mas agora sente-se muito, muito confortável…». Este testemunho do romancista contribuiu para facilitar a instalação das Irmãzinhas dos Pobres no seu país.
Paralelamente ao crescimento geográfico e numérico — 1853, haverá quinhentas Irmãs — verifica-se um desenvolvimento da própria Instituição: o regulamento amplifica-se e fixa-se. O Pe. Felix Massot e o abade Le Pailleur trabalharam nele, em conjunto em Lille, em 1851, durante três semanas. Este projecto foi submetido ao Bispo do Rennes e, no dia 29 de Maio de 1852, Monsenhor Brossais Saint-Mare assinou o decreto de aprovação dos estatutos. Desde então, a família das Irmãzinhas dos Pobres será, na Igreja, uma congregação religiosa.
Esta aprovação episcopal fazia do abade Le Pailleur, oficialmente, o superior geral da Congregação, conjuntamente com a Superiora Geral, Maria Jamet. Ele desejava ser confirmado nesta função e o seu desejo foi satisfeito.
Foi em Rennes que ele se fixou. Com efeito, tinham acabado de comprar, na periferia da cidade, uma propriedade bastante grande chamada «La Piletière». Com o asilo de Rennes, instalou-se aí o noviciado e a casa-mãe que, anteriormente, tinham sido transferidos de Tours para Paris. O Bispo foi lá no dia 31 de Maio, presidiu à tomada de hábito de vinte e quatro postulantes e à profissão de dezassete noviças.
Segue: «Tirou-me a minha obra»
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hoje, em maio de 2009, precisavamos de muitas Joanas Jugan. A pobreza aumenta em cada dia.
Comentário por eduarda — Maio 26, 2009 #