Joana Jugan

Outubro 20, 2007 às 3:17 pm | Na categoria generosidade, solidariedade, voluntariado | Deixe o seu comentário
Tags: , , ,

Anterior: O peditório

As irmãs dos pobres

Pouco a pouco, o pequeno grupo formado por Joana e pelas suas amigas apercebia-se de que estava a seguir uma vida religiosa e organizava-se em conformidade com ela. Tinham feito votos — votos privados, ainda não votos religiosos oficiais — de obediência e de castidade. Usavam já uma espécie de uniforme, inspirado, aliás, nos fatos das camponesas da região. Como os Irmãos de S. João de Deus, as Irmãs traziam com elas um pequeno crucifixo e um cinto de couro; Joana era a Irmã Maria da Cruz.

Em Dezembro de 1843, foi reeleita Superiora. Aconteceu, no entanto, que duas semanas mais tarde, o abade Le Pailleur, por sua autoria, anulou essa eleição e designou como superiora, a tímida Maria Jamet, de 23 anos que era sua penitente; seria mais dócil na sua mão que Joana Jugan, de 51 anos, fortalecida por uma longa experiência, conhecida em S. Servan havia já vinte e seis anos e que não recorria, pessoalmente, a ele.

O sacerdote tinha decidido. Nessa época, face a um padre, que outra coisa teriam podido fazer essas humildes mulheres, senão curvar-se? Mas Joana não o fez sem dor e sem inquietação.

Continuaram, todavia, o seu caminho. Aliás, fora do pequeno grupo, ninguém se apercebeu dessa mudança; Joana mantinha-se aos olhos de todos, responsável pela obra começada.

No início de 1844, a associação mudou de nome oficial: as Irmãs decidiram chamar-se Irmãs dos Pobres, para testemunhar melhor, sem dúvida, a fraternidade evangélica proclamada por Jesus e a intenção de uma partilha total com esses irmãos e irmãs.

Mais tarde, as Irmãs fizeram, por um ano, os votos privados de pobreza e de hospitalidade: este quarto voto — pelo qual se dedicavam ao acolhimento dos velhinhos pobres — era directamente inspirado na regra estabelecida para os Irmãos de S. João de Deus.

Em Janeiro de 1844, Eulália Jamet foi juntar-se a sua irmã mais velha, Maria, na «Casa da Cruz». No fim de 1845, uma nova irmã foi associar-se ao pequeno grupo: Françoise Trévily foi a sexta Irmã dos Pobres. E, no ano seguinte, uma etapa decisiva iria ser ultrapassada: a fundação de uma segunda casa.

Em Janeiro de 1846, Joana partiu para Rennes. Ia pedir para os pobres de S. Servan. Mandou anunciar o seu peditório nos jornais locais que, aliás, tinham falado dela um mês antes, dando a notícia do Prémio Montyon e do discurso de Dupin na Academia Francesa.

Desde os primeiros dias passados em Rennes, Joana verificou que aí, os mendigos eram menos numerosos que em S. Servan; no entanto, os mais velhos precisavam de ajuda. Havia mesmo muita miséria nos bairros pobres da cidade. Imediatamente, um projecto de fundação se esboçou no seu espírito e Joana pediu a autorização da sua Superiora.

A partir deste momento, ela contactou com pessoas importantes e nem sempre bem dispostas, sem olhar a dificuldades. «É verdade, é uma loucura, isto parece impossível… Mas, se Deus está connosco, isto far-se-á!» E como não estaria Ele com os seus pobres?

Maria Jamet veio juntar-se a Joana que já tinha alugado um quarto muito grande e outro mais pequeno, ao lado. Daí a pouco tempo havia dez pensionistas. Era preciso encontrar uma casa maior. As duas Irmãs procuraram, mas em vão. Confiaram-se a S. José (que terá um lugar cada vez mais importante na oração das Irmãzinhas dos Pobres). No dia 19 de Março, dia da sua festa, Maria rezava na Igreja de todos os Santos. Uma pessoa aproximou-se dela: «Já tem casa?» — «Ainda não», respondeu Maria. «Eu tenho o que procuram.» Foram ver; a casa, situada nos subúrbios da Madalena, podia acolher quarenta ou cinquenta pobres e tinha um pavilhão que serviria de capela. De acordo com a casa de S. Servan, o contrato foi assinado a 25 de Março e a instalação fez-se nesse mesmo dia. Alguns soldados ajudaram a fazer a mudança e a transportar velhinhas. E a casa continuou a crescer, na pobreza.

Felizmente, algumas postulantes tinham entrado em S. Servan e outras vieram de Rennes e de outras localidades.

Joana tinha recomeçado os seus peditórios: Vitré, Fougères… Por onde passava, atraía; acontecia muitas vezes que, depois da sua passagem, algumas jovens pediam para entrar no noviciado.

Foi talvez nessa época que Joana foi até Redon. Bateu à porta do colégio dos Eudistas (ela também era um pouco eudista). Um padre contou: «Fui vê-la ao parlatório e ela electrizou-me (…) Sem mais demoras, levei-a à sala de estudo dos nossos pensionistas mais velhos. Eram cerca de cem (…) e Joana Jugan expôs, com simplicidade e clareza, o objectivo da sua missão. Maravilhados e profundamente comovidos, todos esses alunos esvaziaram totalmente os bolsos e as carteiras.»

Um pouco mais tarde, depois de um peditório de Joana, uma nova casa foi aberta em Dinan, numa velha torre das muralhas. Não tardaram, porém, a trocá-la por uma casa menos sinistra e depois por um antigo convento. No capítulo seguinte, tornaremos a falar da velha torre.

E Joana caminhava sempre, «com o alforge a tiracolo e o cesto na mão, pedindo em nome dos pobres velhinhos. Algumas vezes, era para ir socorrer uma das casas recentemente fundadas: Saint-Servan, Rennes, Dinan e mais tarde, Tours (1849). Porque esta obra, de cuja direcção ela tinha sido afastada, foi várias vezes salva do desastre por ela, porque era nela que as pessoas confiavam e porque era ela que sabia o que era preciso fazer-se. Joana vinha, tomava as medidas necessárias, obtinha os fundos que faltavam, encorajava uns e outros e depois desaparecia porque precisavam dela noutro lado. Não tinha onde «descansar a cabeça»; dava a impressão de que não pertencia a nenhuma comunidade local determinada. Desde que os pobres velhinhos estivessem abrigados, cuidados, amados, não se importava de estar sem lar nem lugar certo.

Segue: Um turista inglês e um jornalista francês falam de Joana

TrackBack URI

Blog em WordPress.com. | Tema: Pool por Borja Fernandez.
Entradas e comentários feeds.

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.