Joana Jugan
Outubro 20, 2007 at 3:25 pm | In generosidade, solidariedade, voluntariado | Leave a CommentTags: biografias, dedicação, figuras carismáticas, Irmãzinhas dos Pobres
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Um tempo de pausa e de maturação
(1824-1839)
Joana encontrou, mesmo no momento oportuno, um novo emprego que foi simultaneamente para ela, uma pausa benéfica: uma certa Mlle. Lecoq, vinte anos mais velha do que ela e que era, sem dúvida, também membro da ordem terceira, contratou-a como criada e como amiga. Ambas viveram durante doze anos uma vida comum ocupada pela oração, pelas tarefas domésticas de uma existência modesta, pela presença junto dos pobres e pela catequese às crianças.
Mlle. Lecoq estava atenta à saúde da sua companheira, obrigava-a a arranjar-se, tomava conta dela.
Ambas viviam, com o seu povo, os bons e os maus dias. E houve dias de miséria, particularmente nos anos 1825-1832: em consequência de uma grave crise financeira em Londres, em 1825 e das más colheitas em França, nos anos seguintes, muitas pessoas conheceram a fome. Viu-se aumentar o número de indigentes e mesmo de desempregados que erravam, em bandos, pelos campos. Em S. Servan, o número dos necessitados aumentou ainda mais… Ambas estavam atentas a isso e tomavam, generosamente, parte nos esforços colectivos desenvolvidos para aliviar os miseráveis.
Mas a querida Mlle. Lecoq adoeceu e, em Junho de 1835, morreu, deixando a Joana os móveis e uma pequena quantia em dinheiro.
Para viver, Joana pôs-se a trabalhar a dias em casa de famílias de S. Servan que recorriam a ela: trabalho doméstico, lavagem de roupa, serviço de vigilância a doentes… Laços de amizade foram assim criados com um certo número de pessoas; estas relações foram, mais tarde, muito preciosas para Joana e para aqueles a quem ela ia ligar o seu destino.
Joana tornou-se amiga de uma mulher muito mais velha que ela, Françoise Aubert ou Fanchon. Juntando os seus recursos, alugaram uma casa no centro de S. Servan: duas divisões no andar e duas outras adaptadas nos forros.
Aí, as duas companheiras levaram uma vida ritmada pela oração, muito semelhante à que Joana levava com Mlle. Lecoq. Fanchon fiava em casa e Joana continuava os trabalhos fora.
Mas, daí a pouco tempo, uma terceira foi juntar-se-lhes: uma rapariguinha de 17 anos, órfã, chamada Virgínia Trédaniel. Esta, parece, ter entrado, sem dificuldade, na vida de oração das suas amigas mais velhas. A partir desse ano de 1838, levarão as três — 72, 46 e 17 anos — uma vida regular em comum que só a morte virá interromper.
Joana entregava-se cada vez mais aos pobres que a rodeavam em S. Servan. Mas que fazer? Sentia-se impotente perante estas imensas e múltiplas misérias… Bastaria sentir essa ferida no seu coração? Não seria preciso, com uma espécie de loucura, partilhar mesmo o necessário, mesmo a sua própria casa? Não seria necessário sentir na sua carne?
É esse passo que Joana vai agora dar e não voltará atrás.
Joana dá a sua cama
(1839-1842)
No final de 1839, talvez quando estavam a chegar os primeiros frios do Inverno, Joana tomou uma decisão: de acordo com Fanchon e com Virgínia, trouxe para casa uma mulher idosa, Ana Chauvin (viúva Haneau) cega e doente. Até então, esta velhinha vivia acompanhada pela irmã, mas esta acabava de dar entrada no hospital — situação desesperada.
Conta-se que Joana, para subir com ela a escada estreita de sua casa, a levou às costas… O que é certo é que ela lhe deu a sua própria cama e foi instalar-se no sótão. E «adoptou-a como sua Mãe».
Pouco depois, uma outra mulher idosa, Isabel Coeuru, veio juntar-se a Ana Chauvin. Tinha servido, até ao fim, os seus velhos patrões caídos na miséria; tinha gasto com eles as suas próprias economias; depois, tinha andado a pedir esmola para os manter vivos. Tinham morrido e ela estava exausta e doente. Joana tomou conhecimento desta bela história de fidelidade e de partilha e acolheu a sua protagonista sem demora; desta vez, foi Virgínia que cedeu a sua cama e foi para o sótão.
À noite, depois de terem tratado as suas protegidas e dado as boas-noites à boa Fauchon, Joana e Virgínia subiam a escada que conduzia ao sótão e, descalçando os sapatos para não fazerem barulho, terminavam as suas tarefas e as suas orações antes de se deitarem.
Eram ao todo três a trabalhar (Virgínia era costureira) para manter cinco pessoas, duas das quais, idosas e doentes; às vezes, à noite, depois do trabalho, tinham de fazer serão para coser ou lavar a roupa. Foi, talvez, a partir dessa altura que Joana começou a estender a mão às famílias que ela conhecia bem.
Virgínia tinha uma amiga, mais ou menos da sua idade, Marie Jamet que não tardou a conhecer Joana e toda a gente da casa. Ela própria vivia em casa dos pais e trabalhava com a mãe: mantinham um pequeno negócio.
Marie vinha muitas vezes visitar a sua amiga e também ela dedicava a Joana um grande afecto e admiração. As três — e às vezes Fanchon com elas — falavam de Deus, dos pobres e das questões que a vida lhes punha. Joana fez saber às suas duas jovens amigas que pertencia à ordem terceira eudista. Elas eram ainda muito novas para entrar na Ordem, mas fizeram, com a ajuda de Joana, um pequeno regulamento de vida inspirado no da ordem terceira.
Maria e Virgínia falaram da sua amizade e da sua entrea-juda espiritual, a um jovem vigário de S. Servan, o abade Auguste Le Pailleur, que era o confessor de ambas. Ele concordou com elas e prometeu ajudá-las. Conheceu Joana e interessou-se pelo grupo e pela sua acção benfazeja. Empreendedor, engenhoso, hábil, preocupando-se ele, também, com os pobres, pensou que deveria encorajar o que poderia ser o começo de uma obra. O seu apoio ia ser eficaz, mas também fonte de quantas provações!
A 15 de Outubro de 1840, com a sua ajuda, as três amigas formaram uma associação de caridade que adoptou, como lei, o pequeno regulamento elaborado por Maria e Virgínia.
Assim, à volta das duas velhinhas acolhidas por Joana, nasceu uma pequena célula: era já o embrião duma grande congregação que se chamaria, muito mais tarde, «as Irmãzinhas dos Pobres».
Em 1840, Joana e as suas companheiras não o sabiam. Mas já sonhavam em albergar outras misérias, em oferecer a outras pessoas conforto, segurança e ternura. O dinheiro, Deus não lho recusaria. Mas a casa estava cheia e decidiram mudar.
Um velho «cabaret», ali perto, estava para alugar: era uma grande sala baixa, sombria com duas pequenas divisões contíguas cujo aluguer custaria cem francos por ano. Alugaram-no. E a mudança fez-se no dia de S. Miguel, no ano de 1841. A esta casa se chamou, para a posteridade, «le-grand-en-bas».
Doze mulheres idosas, contando com as que já tinham sido recolhidas, foram ocupá-la. Joana, Fanchon e Virgínia instalaram-se na pequena divisão ao fundo. Maria e Madalena ajudavam e davam algum dinheiro.
E as velhinhas, tanto quanto podiam, fiavam a lã ou o linho; vendiam o fruto do seu trabalho, o que ajudava à subsistência do grupo.
Não ficaram, contudo, por muito tempo no «grand-en-bas»; ainda não era suficientemente grande. Havia um velho convento que estava à venda. Com a ajuda de alguns donativos generosos e na esperança de peditórios abundantes para poderem pagar a dívida, a Casa da Cruz foi comprada em Fevereiro de 1842 e a mudança fez-se, em Setembro do mesmo ano.
A 29 de Maio de 1842, as associadas reuniram-se com o abade Le Pailleur; queriam organizar-se mais solidamente, tendo em vista o futuro. Completaram melhor o regulamento de vida que já seguiam, tomaram o nome oficial de «Servas dos Pobres», escolheram Joana para Superiora e prometeram-lhe obediência. Assim, por um crescimento quase imperceptível, como o de um rebento, a pequena sociedade tomava, pouco a pouco, a aparência de uma comunidade religiosa. Joana deixava-se guiar pelos apelos da vida, os quais identificava como apelos do Espírito.
Segue: O peditório
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