Madre Teresa de Calcutá (1910-1997)

Outubro às 8:48 pm | Publicado em generosidade, solidariedade, voluntariado | Deixe um comentário
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Terésio Bosco
Madre Teresa de Calcutá
Porto, Edições Salesianas, 1990

A religião é o fundamento da vida de Madre Teresa. Ela diz: “A minha vida é dedicada a Cristo. É para ele que respiro e vivo. É para mim uma dor insuportável quando me chamam assistente social. Se tivesse arranjado emprego como funcionária da Segurança Social, há muito que o teria deixado”.

Uma bacia de água limpa

Desceram-no da carroça e a braços levaram-no para a barraca. Os seus gemidos pareciam o ganir de um cão. Se tivesse mais forças, teria ladrado ou dado urros de dor, porque o cancro já lhe tinha devorado metade do corpo.

Os doentes das barracas vizinhas começaram a resmungar. Alguém levantou a voz:

— Não sentis o cheiro? Levai-o para longe.

Uma mulher magra, vestida com um sari branco, aproximou-se com uma bacia e ligaduras. Mas o cheiro horrível que vinha daquelas chagas fê-la empalidecer. Saiu a correr para não desmaiar. O alarido dos doentes tornou-se ameaçador:

— Levem para longe esse cadáver. Deixem-nos morrer em paz…

Agarrando-o pelas mãos e pelos pés, três irmãs pegaram nele e levaram-no para a barraca situada mais a Norte, num lugar fresco à sombra. Era o depósito dos cadáveres. Pousaram-no no chão. Madre Teresa viu que as outras duas já não podiam mais e disse:

— Trazei-me uma bacia de água limpa e, depois, ide ter com os outros.

Pouco a pouco, começou a lavar as horríveis chagas, acompanhada por um longo gemido, entrecortado somente por sentidos gritos de dor daquele desesperado.

A determinada altura, os olhos, que até então a tinham fixado sem nada ver, pousaram sobre ela. O gemido acabou. O moribundo procurava dizer uma palavra:

— Onde estou?… Quem sois?… Como conseguis suportar este cheiro?

— Isto não é nada — respondeu ela — comparado com o teu sofrimento.

Morreu à tardinha. Madre Teresa ainda lá estava, segurando-lhe a cabeça e dizendo-lhe palavras de esperança. Aquele homem, cujo nome ninguém sabia, ainda conseguiu dizer:

— Tu és diferente das outras. Obrigado!

E ela:

— Sou eu quem te agradeço, pois tu sofres com Cristo.

A carroça dos moribundos

Logo de madrugada, Madre Teresa voltou a sair pelas ruas de Calcutá, acompanhada de duas irmãs. A mais nova puxava a carroça. Nesta “cidade negra” até os passeios das ruas são habitados: homens e mulheres de todas as idades, quando a fome ou a febre os devora, deitam-se nos passeios; ali, esperam a morte. Os transeuntes não se preocupam. É uma coisa normal; sempre assim foi. As crianças pequeninas apertam-se contra a mãe que acaba de morrer e choram durante algum tempo. Depois, também elas ficam sossegadas e tranquilas. A morte passa por todos. As irmãs da Madre Teresa carregam, na carroça, os moribundos e levam-nos para a sua casa “Nirmal Hriday”, que, na antiga língua dos Brâmanes, significa: “Coração Imaculado”. Ali, colocam-nos sobre enxergas limpas, lavam-lhes as chagas, enxotam-lhes do corpo os insectos e cobrem-nos com um lençol limpo.

Madre Teresa passa pelas longas filas de enxergas acariciando mãos, dizendo palavras de esperança. É uma mulher pequena e magra, com um rosto estranho… envelhecido e, ao mesmo tempo, luminoso, belo como uma rocha enrugada pelo vento e pela chuva.

O pobre e o Papa

No dia 5 de Dezembro de 1964, Paulo VI terminava a sua viagem à Índia e, no aeroporto de Bombaim, saudava a multidão. Também Madre Teresa tinha vindo de Calcutá para receber a bênção do Papa. Tinha escolhido, para pernoitar, o “centro assistencial” que as irmãs tinham posto a funcionar num dos bairros mais pobres da periferia.

No dia anterior, dirigindo-se para o grande recinto oval onde o Papa encerrava o Congresso Eucarístico Internacional, fora atraída por um forte grasnar de corvos num aglomerado de barracas. Encontrara um velho moribundo, encostado a uma árvore. Braços finos como canas de bambu, rosto esquelético e imóvel. Com a ajuda de um rapaz, tinha-o levado para o centro assistencial.

Ora, enquanto Paulo VI saudava a multidão, o velho agonizava e Madre Teresa estava junto dele. Escreveu Curtis Pepper: “Chamava-o pelo seu nome, Onil, e sussurava-lhe, em língua bengali, palavras de conforto. Nenhum hospital tinha querido recebê-lo. Ninguém, naquela cidade de cinco milhões de habitantes, onde estão recenseados oficialmente três mil bairros pobres, tinha tido tempo de estender-lhe a mão enquanto estava para expirar. “Como te sentes, Onil?” — pergunta Madre Teresa. Para o velho já não havia esperança alguma: a denu-trição tinha-o levado ao ponto donde já não é possível voltar atrás. Nem o alimento, nem a ciência, nem nada o podiam salvar. Clinicamente, Onil estava morto, se bem que conseguisse falar ainda: “Vivi como um animal, mas agora morro como um ser humano…” Logo a seguir, expirou nos braços da Irmã que rezava por ele em bengali.

Madre Teresa não sabia que, naquele preciso momento, o Papa falava dela no aeroporto de Bombaim. Dizia à multidão: “Antes de deixar a Índia, desejamos oferecer o nosso automóvel a Madre Teresa, superiora das Missionárias da Caridade, para que o utilize na sua missão de amor”.

Recém-nascidos em assentos vermelhos

O automóvel era um Lincoln branco, descapotável e com assentos vermelhos, que os católicos americanos tinham oferecido ao Papa para as suas deslocações na Índia.

Desde o dia 6 de Dezembro, os habitantes da periferia de Bombaim viam o Lincoln branco, guiado por um hindu esfarrapado, percorrer os bairros miseráveis da cidade. Parava em todos os depósitos de lixo. Saíam duas irmãs, vestidas com sari de algodão branco, que procuravam entre os detritos, e muitas vezes encontravam pequenos embrulhos com alguma coisa viva, palpitante lá dentro: um recém-nascido que uma mãe tinha abandonado porque não podia alimentá-lo. No “Centro” das Missionárias da Caridade já havia mais de cem bebés, bem dispostos, a gritar e a chuchar o leite que vinte cabras produziam cada dia.

Posteriormente, e de improviso, o Lincoln desapareceu. “A oferta do Papa foi muito preciosa e causou-me uma grande emoção” — disse Madre Teresa. — “Mas demo-nos conta que a gasolina era muito cara e decidimos renunciar ao automóvel vendendo-o. Um rico hindu ofereceu-me vinte e sete milhões: um preço de estimação, evidentemente, que eu aceitei. Metade foi-me dado em dinheiro e a outra metade em terrenos, em que começámos a construir a “cidade dos leprosos”.

As irmãs continuaram a percorrer os bairros degradados, à procura de recém-nascidos, de moribundos e de leprosos. Mas levavam a carroça puxada à mão.

Segue: 18 anos: que rumo dar à vida?

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